• Barulhista

Aglomeração virtual




Entramos no momento em que as relações, enquanto ameaçadas, se refazem e parecem ar rarefeito impedindo a paisagem. Parece um inverno social. De longe se formou algo diferente diante dos meus olhos, talvez fosse uma pessoa segurando um livro. Quando a gente se aproxima vê que é só uma turma muito junta. É assim mesmo. O que era de fato? Uma micro comunidade. Essa comunidade me convidou para entrar, disseram gostar da igreja sem deus - embora seja diversa demais para deidades - há tempos conhecida como cinema. Entrei por gosto e pensei ser provisório, não tenho muita resistência para grupos de whatsapp e interações virtuais com grande número de pessoas. Me chamam ermitão. Imaginei sair logo no dia seguinte, mas gostei da ideia e do filme que iríamos assistir: Dolls dirigido por Takeshi Kitano. Depois de alguns anos como alguns filmes melhoram né? Não que fosse ruim antes. ¨Depois de muitas sessões da tarde na tela da Globo, descobri com um grupo de amigos, ainda na adolescência, que haviam filmes muito diferentes do que estávamos acostumados, é por isso que aceitei o convite do grupo.¨ Ideias boas tem filhotes e eu já imagino um grupo de whatsapp em que as pessoas combinam de ouvir um disco de música brasileira por semana. E a cada fim da audição conversem sobre o que ouviram. Começo a suspeitar que a aglomeração virtual tem lá suas vantagens. Desde 2009 sou um frequentador assíduo desse ambiente, mas comunico pouco, meu bate-papo é musical. De repente, vejo o filme. Ele tem cores, sensações e mil símbolos, e está numa qualidade incrível. Graças ao Stremio, descoberta que fiz no grupo também. Pra quem como eu já se assustava com a facilidade do youtube, esse outro é um assombro só. Ficamos a olhar nossos ambientes e rostos, falamos pausadamente para que entendam que ainda não foi passada a vez ao outro. Mesmo o silêncio entre as palavras é escutado com calma. Sem rompantes ou ansiedades comuns de mesa de bar. A maioria bebe álcool e isso acrescenta alguma intimidade à conversa. Os pensamentos me dão arrepios. Próximos o suficiente para saber o que cada um pensou do filme, sim há uma conversa após o filmes. Por vezes alguns buscam explicações para o que viram, como se não bastasse a mágica e a carga imagética das cores. Mas entendo que a gente precisa resolver alguns porquês. Fora a procura por um realismo tão bombardeado pelo discurso geral das mídias que nos pegam no colo. Certa vez um amigo disse que o cinema evoluiria a ponto de que no futuro entraríamos nas salas para ver um festival de vhs com festas de debutantes de 1995. Tarda muito não. Visto que o experimentalismo avança sobre os escombros dos próprios conceitos. Porque estamos todos olhando para esta tela? Não conseguimos sair daqui. Não é possível esperar ajuda, não virá. Finalmente o filme acaba. Ainda não tenho certeza de que todos terminaram de ver, talvez terminaram antes de mim. Essa coisa de compartilhar pontos de vistas sobre um mesmo alvo é um exercício delicioso. Obra aberta do Umberto Eco, sabe? Nos abraçamos, nos beijamos. As mulheres grisalhas sorriem, comemorando junto à distância. Um dos jovens que acendeu a fogueira corre na nossa direção e a gente diz “Ela conseguiu!”. Ele fica exultante e sai correndo para contar pros outros. Sobre a falésia, de novo muito pequeno, está o cara do cachorro. Contamos para ele também, aos gritos. Tudo porque a gente olhou nos olhos da foca, penso de novo. Essa é toda a diferença. Fazer novos amigos, sem abraços e sem beijos. Comemorando a distância o fato de estarmos juntos. Penso de novo na diferença entre amizade e proximidade. Como na Espanha que durante a pandemia foi permitido passear com os cães e muitos alugavam seus pets para que outros pudessem sair um pouco. Contamos também um com o outro para não sair por aí gritando. * Um domingo que termina com cinema e diálogo, é um domingo em que a inexpressividade de qualquer coisa foi contemplada. Eu me sinto um músculo, sempre me senti. O que quer dizer que sou mais pernas e menos vísceras. Será? Pareço tão quieto tomando meu chá de hortelã. Em qual sentido você diz isso? Talvez por ser tão pouco racional. Me apaixono por tudo e tenho uma pasta com minha coleção de obsessões, padrões estéticos e dramaturgias sonoras. Resumindo, o músculo não sabe porque contrai, mas é assim que acontece. Onde eu estava antes - Contagem -, parece que o músculo não tinha espaço. Isso é um pouco triste, porque ao mesmo tempo fui muito feliz ali. Tive que inventar um lugar, afastar as paredes, levantar o teto e abrir para visitantes. Meu próprio museu de mim, aberto, com uma cobrança de uma taxa de manutenção claro. É sobre isso, escrita automática e confinada. Processo confuso, ontem trabalhei em duas músicas de cantores. À primeira vista é um trabalho comum, mas retocar - digo tocar - o trabalho artístico de outra pessoa é como - não encontro exemplos que funcionam aqui, vou falar mais. Há tempos eu tinha uma pesquisa sobre timbres apreendidos com os meus professores do O Grivo. Essa pesquisa resultou em várias trilhas sonoras para teatro que moldaram muito do que acredito ser música. Quando preciso rever o trabalho de outro artista, sinto que estou num ambiente em que essa pesquisa já não funciona, afinal um outro universo sonoro se apresentou. (tô viajando?) - espero que sim. Desde o ensaio para gravar numa base de rap até a escrita para estruturar um remix de uma música, tudo agora é sobre confinamento e estetização da natureza. Sigo solto, mas com uma coleira que me indica de onde vim. E me envolvo a ponto de ter anotações sobre aquelas músicas dos cantores, como se minhas fossem. (gostei de escrever isso) Tanto faz se a gente está junto pra fazer música, conversar sobre cinema ou rir de algum meme. Esse caos-obra que se tornou a quarentena em que todo mundo virou imigrante de algum lugar da cidade (despatriados dos bares) unidos por uma corda vermelha chamada internet não vai acabar porque a gente vai se lembrar, assim como eu me lembro de Contagem e de Belo Horizonte. Dolls é uma alegoria do teatro de bonecos, o que somos nós olhando para essa tela? Adorei o filme, aliás. * O amor segue ao meu lado, dormindo comigo, brigando, fazendo almoço, reclamando de tudo que precisa ser revisto. Reparação doméstica. (arrisco) O desânimo não pode vencer o amor. O desânimo não entende nada sobre beijos de madrugada e conversas sussurradas no pé do ouvido. Não sabe que é preciso deitar para rolar. Em breve tem outro filme no grupo, tem duas músicas de amigos pra sair, tem mais duas pra terminar sobre confinamento e o livro que estou lendo: Sobre os ossos dos mortos, de Olga Tokarczuk. Não prometi atualizar o blog, mas atualizei. Seguimos juntos! Se cuidem!

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