• Barulhista

Esmalte de unha

Atualizado: Abr 8

Todo efeito busca sua causa. O caso que, antes de mais nada ainda ronda minha cabeça, irei contar aconteceu aqui mesmo em Belo Horizonte no final de agosto de 2018. Tarde da noite fui chamado pela Dona Cassiane para um conserto de seu chuveiro, a fim de cumprir meu trabalho de marido de aluguel. Época pouco amistosa para a profissão por conta de um crime, destes que abalam o país, e um áudio revelado pela polícia civil em que um homem encomendou a morte da própria esposa através de um matador de aluguel que se passava por marido de aluguel. Segundo a polícia, o homem pagaria de 7 a 10 mil para matar a esposa, e ainda não se sabe o que o motivou a mandar matar a mulher. Não passava muito da hora do almoço quando toquei o interfone do edifício Regina – rua São Geraldo 53, bairro Floresta – “vim arrumar o chuveiro, a senhora me ligou ontem lembra?”.


Desde o início eu notei algo estranho no apartamento, talvez você já tenha entrado em algum lugar que te deixa assim meio sem ar, ou meio sem entender direito as coisas. O inferno, se existe, com certeza é um lugar desse tipo. Como marido de aluguel estou acostumado com o cheiro das casas, quase sempre: comida, poeira, suor em sapato, fumaça de fogão, couro, giz de cera, creme dental, ração de gato (apodrecendo na vasilha), filtro de barro, sabão em pó e num último caso, este mais raro, incenso. Talvez fosse isso uma maldição, e talvez esta maldição de perfumes pouco balanceados em cada cômodo, como numa estufa coletiva, quisesse alguma compreensão, que não física, simbólica. Naquela terça era o cheiro de esmalte,  estes usados para pintar as unhas e que infestam salões de beleza, e que me fez pensar que alguém ali trabalhava como manicure.


Eu me lembro também de uma música evangélica tocando baixo. Sonoridade-crente, geralmente é tocada alto, acompanhada por alguém cantando junto mais alto ainda, até fazer o cão uivar. Ali tocando baixinho, pentecostes sussurrado, feito alegria antiga de uma avó, suponho, que já não se importava com o volume do rádio e recolhia-se em meio aos gritos da cidade. E aquela variada monotonia de assuntos na música ecoando todas as virtudes de deus e sua suspensão no tempo. Paciência para ouvir. Me lembro de um dia minha mãe entrar no meu quarto dizendo que tinha gente querendo me ver na sala de casa, e lá oito homens da igreja dela sorriram com as mãos apontadas para a minha cabeça. E falaram que eu devia ser recebido, coberto de sangue, um automatismo de bênçãos e pedras fósseis, eu de olhos abertos, baixados para o tapete, aguardando o fim e pensando que na manhã seguinte eu iria lavar aquele tapete. Me lembro que aquilo acabou com dois daqueles homens chorando e dizendo que eu era especial, mal não devia fazer, por isso fiquei ali até o fim – sem sentar e fazendo que ouvia com verdade. Me lembro da camisola de Dona Cassiane. “O banheiro é na segunda porta seguindo, faz favor. Depois que meu marido morreu são vocês que tem que me ajudar né?”.


O piso do banheiro, assim como o espelho, tinha marcas de esmalte de diferentes cores e o chuveiro marca de superaquecimento na parte de cima. Caso clássico, uma simples troca de resistência e aproveitei para o agrado de limpar a tampa d’água, a com os furinhos por onde sai o jato. Durante o teste de temperatura o som do rádio parou e Dona  Cassiane substituiu a música por uma fala quase ininterrupta sobre o conserto. No seu ombro esquerdo, agora a mostra, quatro manchas escorridas. Cicatrizes, pensei. Mas não era isso, parecia mais uma matéria espessa e semitransparente. A segunda coisa que pensei foi esperma. Era isso, enquanto eu consertava o chuveiro essa senhora se divertia. Não vi problema algum nisso, aliás se me permite falar, nesses cinco anos como marido de aluguel eu já vi cada coisa. Sinceramente, o brasileiro só não foi a lua porque não pode levar cerveja mesmo.


“Já terminei aqui Dona Cassiane, tudo trocado e limpo”. Aceitei o convite de um café, após o almoço quem é que recusa um cafezinho? “Pode sentar querido”. Ao olharmos um par de olhos a gente percebe que aqueles dois pequenos planetas guardam qualquer coisa de tronco e ruína, alegria-nuvem, como é porosa a matéria. O píres e a xícara, um chocalho longe do ouvido. A ruga no tecido de Dona Cassiane, um filhotinho de catástrofe – esperando o ferro de passar e antes outra ruga, nela – tecelão em pausa e perspectiva. Dei o primeiro gole e não me lembro de mais nada. Acordei aqui no hospital.

“Muito obrigado por sua fala Júlio,  eu sou o Dr. César e este é o Leonardo nosso psicólogo aqui. O que aconteceu contigo foi o que alguns consideram um milagre, você está aqui há duas semanas e está tudo sobre controle. Mais tarde, com calma, a Rosa vai te mostrar algumas coisas que saíram na imprensa sobre você, se quiser ver, é claro. Ainda não sabemos como mas, seu esternoclavicular, que é uma parte do seu ombro, foi arrancado e substituído pelo de outra pessoa. Não sabemos como ou quem fez essa cirurgia, mas sabemos que este novo esternoclavicular é feminino e o mais curioso – está coberto de esmalte. Esmalte de unha, digo. A central da empresa em que trabalha como marido de aluguel passou pra polícia este endereço e é isso que nos preocupa. Você diz a ele Leonardo?”


“Júlio, neste endereço que você nos disse, que é o mesmo que a empresa nos informou, nunca houve ninguém com o nome Cassiane e muito menos é um prédio. A polícia está investigando, estamos todos tentando entender tudo com calma, mas pouca coisa bate com o seu relato. Todas menos uma. Eles estiveram com sua irmã ontem no seu apartamento e ele está coberto de base para unhas, não há sinal de arrombamento e a única coisa que ela deu falta foi do seu chuveiro”.

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