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  • Barulhista

César



Para lá do campo de várzea e da creche do Monte Castelo está um trono, tá não é exatamente um trono e sim um quarto com uma cama de casal, mas imagina um trono aí, um príncipe sentado e em volta dele seus súditos. Cheiro de tabaco San Marino, uma tv de tubo, duas prateleiras de uma parede a outra com livros roubados da biblioteca estadual e do centro cultural de belo horizonte, um pôster feito à mão com um desenho do Jean Cocteau para o filme Sangue de um poeta, maços de Lucky Strike espalhados pela cama. O pequeno castelo de César, uma Grushenka pós adolescente, para se salvar César usa a persuasão, para sobreviver usa quem está por perto. César é um Simone Simonini em construção, estudante de publicidade e se diz cinéfilo. O portão da casa sempre destrancado, mesmo durante a madrugada, qualquer um entrava e tinha acesso ao jardim de dona Emília, avó materna de César. Shine — Collective Soul. Ele abriu o portão, deu boa noite pra dona Emília. O César tá aí? Pode ir lá, tá com a Luana. O corredor estreito levava do jardim da avó até o quintal e mais ao fundo a casa da família. O pai, Mauro, relojoeiro aposentado de forma ilícita usou o nome do irmão. A mãe, Maria, vendedora de cosméticos trazidos do Paraguai. A irmã, Catarina, professora da escola infantil Castelo da Educação e o irmão, Chico, que fazia de tudo, desde limpar quintais e lotes até cortar árvores e ajudar pedreiros em grandes reformas. A tv sempre ligada, o aparelho de som também, confusão de ruídos. Casa num caos inofensivo, já absorvido pelos moradores e visitas. O cachorro, Bad, em homenagem ao disco de Michael Jackson, sem raça definida, preso por uma corrente de bicicleta. Na sala, seu Mauro vendo o programa do Ratinho, dona Maria na cozinha fritando bolinhos de chuva num óleo sujo, tudo na cozinha era sujo, pedir um copo d ́água era correr o risco de beber junto um pouco de café ou qualquer coisa impregnada no fundo do copo. Era este o cenário até a porta do quarto de César. Qualquer um daria pelo menos uma olhada na cara de alguém que entra na sua casa, mas ali o que acontecia era no máximo uma respirada funda de seu Mauro. Alguns acordes de violão deram as boas vindas ao nosso amigo, a cena era comum: César como um guru sentado no centro da cama, só de cueca, com o violão no colo. Luana arrumando os livros e resmungando sobre a bagunça do quarto. E aí gente, beleza? Foi respondido pelo guru com um aceno de cabeça e um gesto de silêncio com o indicador nos lábios. Obedeceu e ficou encostado no marco da porta. Um guru erudito da periferia, trajando cueca falsificada da Calvin Klein, cabeça sempre acima do horizonte, cabelos loiros cortados por ele mesmo numa mistura de Kurt Cobain no acústico mtv e Brad Pitt no Clube da Luta. Até mil novecentos e noventa e quatro ele era apenas um garoto que ganhou alguns concursos de passinho, andava de skate e fazia todas as garotas suspirarem. Às vezes foi o acesso à obra de Arvo Part ou algum livro de filosofia a que a universidade indicou, mas naquele ano se dedicou ao grupo que se formaria naquele quarto.

Esse guru-vampiro vivia da atenção dos amigos, era alimentado pela paixão que despertava neles, um doido de estimação. Luana limpando os livros e atenta com a ordem alfabética por sobrenome. Ele ainda encostado na porta esperando o momento que pudesse falar. César se levantou, deu um mínimo sorriso, segurou com muita força o braço de Luana e cuspiu bastante saliva no rosto. Que isso César? Ela gosta, não gosta Luana? Ela abanou com a cabeça, limpou o rosto com a anela dos livros. Eu mandei você limpar? Ainda sorrindo. Senta aí na cama, que cê tá querendo cara? Vim saber se tirou alguma música nova. A cuspida, fato isolado. Os conselhos dele sobre como conquistar garotas eram escutados com atenção por conta de momentos assim, ultrapassava qualquer tipo de cuidado com o outro. O cara cuspiu na cara da Luana, Nilo. Ihh, já vi ele fazer coisa muito pior com ela, tô pensando em não voltar mais naquela casa. Mas ela não falou nada, será que ela gosta? Cara, uma coisa é falar sobre isso entre quatro paredes, essas coisas de jogo erótico de casal e tudo, mas na nossa frente é cabuloso. Fiquei assustadão, não queria parecer um viadinho, mas ele disse que eu não ia fazer nada porque se eu não gostasse de ver aquilo teria ido embora, e eu fiquei. É, falou a mesma coisa pra mim.

Alguns meninos do bairro achavam que César era só um tarado que usava sua beleza e sua lábia para manter por perto um clã de escravos emocionais. Nilo mesmo era um dos que pensavam assim, era muito amigo de Sérgio e do nosso amigo. Aliás, nosso amigo ainda não sabia que num futuro próximo, César iria transar com Samara, a irmã mais velha de Laís. O primeiro livro que César roubou da biblioteca estadual foi Apocalípticos e Integrados do Umberto Eco, teve comemoração com vinho e cigarros no quarto. Lia em voz alta para os amigos, Luís disse não entender e como um santo graal César entregou. Fica uma semana com ele Luís, já comi esse livro. Nilo queria ser o próximo. Com aparência distraída, tira a mochila das costas e entrega no guarda volumes, serve um pouco de água, pega alguns marcadores de papel oferecidos pela biblioteca e entra. Balança o corpo como se procurasse um título específico e encontra o livro que foi previamente pensado. O que acontece é que havia pouco ou nenhum dinheiro para comprar livros e como César tinha sua própria biblioteca, os outros garotos eram reféns do que ele roubava. Alguns queriam seus próprios livros, títulos de interesse particular, claro que nem todos tinham a habilidade e a coragem para entrar numa biblioteca para roubar um livro. Quando pensa em roubar algo é preciso alguma ética ou regra. A gente só pega um livro que tenha mais de um exemplar, pra biblioteca não ficar órfã. César não ficou muito feliz com a independência de seus súditos, mas acabou ensinando as técnicas que tinha desenvolvido para levar livros de bibliotecas públicas.

O primeiro título foi Artigos musicais do Lívio Tragtenberg. Foi usada a técnica mais primitiva, colocar o livro dentro da calça e sair com com aparência distraída e o corpo um pouco mais curvado pra frente. Lembra de sempre dizer boa tarde para o bibliotecário, se possível fazer alguma amizade. Era um bando de garotos interessados em descobrir coisas. O segundo título foi Utopia e paixão do Roberto Freire. Uma técnica um pouco mais elaborada que chamavam de lançamento. Um ficava do lado de fora da biblioteca e o outro entrava e passeava com um livro debaixo do braço e outro aberto nas mãos, o livro que seria lançado era o que estava debaixo do braço, franzia os lábios e encostava na janela, segundo andar, jogava o livro pela janela, o outro agarrava e aguardava mais um título. Era preciso contemplar o título escolhido por quem jogava e por quem agarrava. O terceiro título foi uma biografia do Jean Cocteau. Este foi roubado duas vezes em duas bibliotecas diferentes. Na primeira foi na biblioteca da puc que tinha alarme, um pequeno filamento metálico e magnetizado era preso na capa, então bastava arrancar a capa e usar alguma das técnicas de levar o livro. O segundo foi pego de um jeito que chamávamos de Pinochio. Pegar um livro emprestado (Jean Cocteau R-0456), é preciso que tenha mais de uma cópia na biblioteca, então você volta com ele e faz questão de avisar ao bibliotecário que está entrando com um livro que é da biblioteca. Tudo bem, fica à vontade. Você então sai com o mesmo livro, isso é para criar a ilusão de que você pega emprestado e lê na biblioteca. Depois volta três dias depois com outro livro e faz o mesmo processo de dizer que está com um livro emprestado, ao sair leva também o segundo exemplar que havia na biblioteca (Jean Cocteau R-0457), caso o alarme dispare o bibliotecário vai conferir e ver que o título é o mesmo que consta como emprestado e te libera, por último você volta perto da data de devolução com o primeiro livro (Jean Cocteau R-0456) e devolve. O segundo exemplar já está na sua casa.

Era este o messias dos meninos, livros roubados, conselhos amorosos, exemplos de conversas profundas e longas sobre a importância de ser e de parecer inteligente. Quase inocente, não fosse pelos abusos do guru. Depois foi a vez das fitas vhs. César alugava cinco tas na MG Vídeo toda semana. Assistia muitas vezes durante a semana, copiava a fita com seus dois videocassetes de quatro cabeças que a mãe trouxe do Paraguai e no m de semana, o quarto era um cineclube com palestra sobre cada um dos filmes. Nesta semana estavam em cartaz: A árvore, o prefeito e a mediateca de Eric Rohmer, Bande à part de Jean-Luc Godard, A teta e a lua de Bigas Luna, Deus e o diabo na terra do sol de Glauber Rocha e o Sétimo continente de Michael Haneke. Depois da longa sessão César colocou Duofel pra tocar e começou a cinegrafia a comparada. Ali no Monte Castelo em mil novecentos e noventa e quatro, cinco garotos entre quinze e dezessete anos discutiam essas obras enquanto os sucessos da Jovem Pan, o plano real e os calçados Zepelin e Impeachment carimbavam o tempo. Brincando de eruditos para impressionar o vento que a janela do quarto trazia. Chico entrava vez ou outra e dizia que eram um bando de vagabundos que só faziam feder a casa de cigarro e falavam alto demais depois da meia-noite. Cala a boca retardado, vai carregar entulho, pedreiro! Até então era proibida a entrada de mulheres, César dizia que as meninas do bairro só queriam conversa com quem tinha carro, emprego e falasse sobre coisas idiotas. Nilo tinha mais medo do que César faria com elas do que dúvidas sobre o que de fato elas queriam. Sérgio tinha dito que na próxima semana não viria para a sessão de filmes, a Val reclamava que há seis sábados eles não saíam par uma cerveja na praça Itajaí. Traz ela aqui, talvez ela que mais tranquila sabendo o que fazemos. O histórico de César não ajudava na escolha de convidar uma namorada pra lá. Um ano antes foi pego aos beijos no portão de Gislaine, namorada do nosso amigo, depois tinha enviado uma carta social para Patrícia, convidando para uma sessão só com os dois, isso fez Luís faltar a três sessões do cineclube. César sempre encontrava uma saída, maldita retórica, pedia desculpas, explicava que estava apaixonado pelo casal, que car com a namorada de alguém era uma maneira de homenagear a união dos cinco. Um dos discursos de César sobre isso foi esse:

Essas mãos fizeram tudo isso aqui, cada filme, cada livro, tudo isso é um presente pra nós...

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