• Barulhista

Como você diz a alguém que está apaixonado por outra pessoa quando esse alguém é você mesmo? - 1/4

Atualizado: 29 de Dez de 2020




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Beep!


O congelamento do tempo não é segredo pra ninguém, talvez nunca tenha sido. Já quando os cânones de beleza eram outros já se sabia que era impossível comunicar a verdade através de uma imagem de alguém congelada num quadro. A capacidade da câmera fazer de qualquer coisa algo belo mostra bem essa fraqueza em comunicar verdades. O momento de pânico ou de tranquilidade não pode voltar atrás, instantâneo. Depois a gente esquece, se ninguém comenta a gente nem fica sabendo de nada. O padre baloeiro, talvez você nem lembrava dele, mas eu disse e a sua mente traz a lembrança recortada. A confusão misturada com riso, o som dos balões estourando, o desespero naquela solidão, lá no alto perto de deus. A pessoa responde com a mente: algo estranho vai acontecer. Algo muito estranho vai acontecer. Olha de novo o e-mail...

Espera esse sino parar de tocar que eu continuo.

A vizinha da pessoa molha as plantas com a mangueira que tem um remendo marcado com tecido na ponta. Ela usa a ponta do tecido para cobrir a ponta da mangueira, isso faz com que a água espalhe e caia com menos violência nas plantas. A pessoa observa e vê que assim, com esse tecido na ponta, ambas parecem usar máscara contra a tal gripe. A mangueira, outra, a planta, o pé de manga, é tão larga e alta que faz a casa parecer um navio quando balança. Nada balança dentro da casa. Pra quem olha de dentro pra fora, o mundo à deriva.

Aposto que não sabia que é comum entre os compositores americanos de música experimental, divulgar os lançamentos de discos dos amigos enquanto não estão lançando nada. Na verdade eu inventei isso, é um assunto descartável, para usar quando não se tem nada pra falar. Se a pessoa não conhecer nada de música, substitua compositores por atores. Aposto que não sabia que é comum entre profissionais da artes de Chicago divulgarem peças, exposições e filmes de colegas quando não estão em cartaz. Não parece que eu sei do que eu estou falando? Ainda é sobre como congelar o tempo, à medida que seus olhos passam pelas palavras, elas ficam para trás e novas outras vão surgindo. É assim que funciona em todo lugar. Mesmo se eu pular continuam aqui. Não há muito o que fazer, a gente já está aqui e não é só sobre isso que eu vou falar, nem é de mim, nem do congelamento do tempo.

Um poema é explicado, dissecado, porquês: entendeu o poema: acabou o poema. Aquela coisa de que o personagem não pertence ao mundo. Diferente da música, você a interpreta em silêncio ou cantando como o filho da outra vizinha que acha que sabe cantar e acha que sabe cantar rock.

A pessoa tomou banho, pessegou a pele e sentou no computador. Whatsapp Web. Essa é uma conversa inteira entre a pessoa e a outra pessoa. Metade juntas, metade dor como nos hospitais. Sussurro das teclas no pé do ouvido.

Pessoa: Descobri como fazer funcionar.

Pessoa: Sorte no azar?

Outra pessoa: Quase sempre.

Pessoa: Já viu 'Holy Motors'?

Outra pessoa: Ainda não. Mas já me falaram muito bem.

Pessoa: Vi ontem, incrível mesmo.

Outra pessoa: Sabe se ainda tá em cartaz?

Pessoa: Não sei, mas posso te passar um link pra download... ou é contra o download?

Outra pessoa: Não sou contra, só tô sem computador mesmo.

Pessoa: Devíamos ver juntos.

Outra pessoa: Vamos! (​ ✓)

Outra pessoa: Bom que eu tenho umas cortesias pro Belas.

Aí é só falar quando. Ou pretende ver em outro lugar?

Pessoa: Ele não está em cartaz, podemos ver outro filme.

Pessoa: Ou podemos ver o 'Holy Motors' aqui em casa.

Outra pessoa: Ué, tudo bem. Mora em Contagem, né? Pessoa: Sim. Não sei onde você mora, mas aqui costuma ser longe de tudo.

Outra pessoa: É bem longe daqui mesmo.

Pessoa: Equilíbrio é uma utopia mesmo.

Outra pessoa: E por que diz isso?

Pessoa: Pensei comigo aqui e quis dividir contigo. Não é nada demais.

Outra pessoa: Tudo bem. (mão acenando)

Outra pessoa: Almoço por minha conta aqui, tá servido?

Pessoa: (Eu devo estar com uma cara de bobo aqui.)

Obrigado pelo convite, um dia faremos isso ser possível.

Um dia a pandemia termina.

Outra pessoa: Eu tenho cara de boba sempre.

Pessoa: Não parece.

Outra pessoa: E sim, espero ter a oportunidade.

Pessoa: Eu só tenho cara de bobo quando algo me desarma.

Outra pessoa: Fico feliz, então. É pra ficar, né?

Pessoa: Ficarmo-nos. (Caetano Veloso)

Pessoa: Não estou conseguindo me concentrar no trabalho hoje.

Outra pessoa: Pode não.

Outra pessoa: Silêncio te incomoda?

Pessoa: Não. Aliás, depende do silêncio, mas não. Gosta de surpresas?

Yolis: Depende da surpresa. E não gosto de ficar curiosa.

Se for me surpreender não avise.(​ ✓✓)

Pessoa: Foi só uma pergunta.

Outra pessoa: Eu sei, mas tudo bem falar.

Pessoa: Deixa eu girar contigo.

Outra pessoa: Deixo.

Pessoa: Devagar que eu fico tonto rápido.

Outra pessoa: Devagar, que é perigoso cair e machucar.

Pessoa: Cansei de cair, tô precisando flutuar.

Outra pessoa: Que a gente flutue, então.

Pessoa: Tenho uma proposta profissional pra ti.

Outra pessoa: Diga.

Pessoa: Já fez alguma capa pra livro?

Outra pessoa: Nunca. (carinha triste)

Pessoa: Bem, estou finalizando um, de poemas, assim que pronto te envio... daí se estiver interessada em fazer, voltamos nesse assunto.

Outra pessoa: Tudo bem. Será um prazer.

Pessoa: Mais cedo você parecia um pouco triste, está tudo bem por aí?

Outra pessoa: Tá tudo bem, meu bem. É só tédio. Meu irmão de dois anos curtindo Beirut e The Tallest Man on Earth. Não sabe nem falar direito mas tava tentando cantar.

Pessoa: Que lindo!!! Qual o nome dele?

Outra pessoa: Manoel.

Pessoa: Maravilha!

Outra pessoa: "Tem tanto tempo que eu não abraço ninguém que assim que eu tiver uma chance, vou direto nas pernas." Fica esperto, hihi.

Pessoa: Vem cá! (✓​ )

Outra pessoa: Tô indo. (pessoa caminhando)

Pessoa: Tem uma turma me chamando pro Maletta, mas eu estou com uma preguiça.

Outra pessoa: Maletta é bom. Ah, se eu estivesse animada.

Pessoa: Pois é, sigo com desânimo por aqui também.

Outra pessoa: Quer ouvir a minha primeira música?

Pessoa: Onde?

Outra pessoa: Vou te mandar. Mas dá um desconto que eu não toco bem, a gravação de celular é péssima e o piano tá desafinado.

Outra pessoa: <mídia omitida>

Pessoa: Que vontade de te dar um abraço.

Outra pessoa: Tá me devendo muitos abraços, então.

Pessoa: Talvez eu não deveria dizer, mas fiquei emocionado.

Pessoa: Começou piano, terminou lágrima.

Outra pessoa: Acho que é a intenção.

Pessoa: Qual é a intenção? Qual o nome?

Outra pessoa: De emocionar mesmo.

Outra pessoa: O nome é Quando Polanco dorme. Polanco é um personagem do Cortázar e acabou virando um personagem fotográfico meu.

Pessoa: Conheço.

Outra pessoa: É quase uma canção de ninar. Daí apareceu

Polanco de novo.

Pessoa: É linda! Muito muito.

Pessoa: Yolis é um apelido?

Outra pessoa: Obrigada.

Outra pessoa: É quase. Ninguém me chama assim.

Pessoa: Pois vou lhe chamar assim

Outra pessoa: Ô. Agradeço de novo, rs.

Pessoa: Muitas surpresas...hoje.

Yolis: Pra você?

Pessoa: Sim.

Yolis: Fico feliz.

Pessoa: Mas, você não esperava o convite para a capa do livro né? Além disso, pensar em você tem sido um bocado admirável.

Yolis: Não esperava. Foi bom.

Yolis: Olha, penso assim também.

Pessoa: Com calma nosso abraço será lindi. (carinha com coração nos olhos)

Pessoa: Hoje a letra "o" parece estar de folga.

Yolis: Ela só deve ter cochilado.

Yolis: E eu só vou ficar pensando nesse abraço.

Pessoa: É seu.

Pessoa: Como está o pé furado?

Yolis: Melhorou... Agora consigo andar.

Yolis: O que tá doendo mesmo é o braço da vacina anti tetânica. (não sei como é que fica o hífen mais)

Pessoa: Puxa! Espero que melhore logo, também não sei como está o hífen nesse caso. Deve estar pior que seu braço.

Pessoa: Está tomando remédio pra dor?

Yolis: Tô precisando de cafuné e carinho

Yolis: Ah, não. Nem sei porque.

Pessoa: Distância-vontade.

Yolis: Daqui a pouco sobra só a vontade.

Pessoa: Prometo sobrar cafunés e carinhos.

Yolis: Eu cobro.

Pessoa: Eu cubro.

Yolis: Esperando e querendo cada vez mais.

Pessoa: Devemos ter calma.

Yolis: Tenho calma.

Pessoa: Já temos carinho. (carinha sorrindo)

Yolis: Então temos muito.

Pessoa: Temos!

Pessoa: Você sabe que eu tenho mais idade?

Yolis: Eu sei. Você sabe que eu tenho pouca?

Pessoa: Sei sim, 21..

Yolis: E tudo bem?

Pessoa: Eu não tenho pensado nisso, tenho pensado em você.

Pessoa: Mas, conversamos pouco, até nossas conversas ficarem mais bonitas, eu pensei que você tinha um namorado.

Yolis: E quando ficou mais boniga?

Yolis: Bonita*

Yolis: Ai, essas letras. (carinha sorrindo)

Pessoa: Hehe

Yolis: Não, não precisa responder.

Pessoa: Eu tinha uma boa resposta.

Yolis: Bom, então eu quero saber.

Pessoa: Foi ficando mais bonita a cada "enviar"... e teve seu

ápice quando um piano me abraçou.

Yolis: Só consigo sorrir.

Pessoa: Sorria, você está sendo abraçada. Gosta de Owen?

Yolis: Gosto sim.

Pessoa: Primeira coisa que ouvi hoje, voltando pra casa e pensando numa pessoa linda. Fui comprar máscaras.

Yolis: Que sortuda essa pessoa.

Pessoa: Já é sorte o bastante ter alguém tão incrível no pensamento.

Yolis: Desculpa, o sono bateu aqui.

Yolis: Então, boa noite pra você que não dorme.

Pessoa: Boa noite Yolis. Dorme bem. Daqui a pouco vou também, estou com disciplinas novas. Há muito trabalho. Beijos e cafunés em ti!

Yolis: Beijos e abraços apertados. (coração vermelho)

Pessoa: Eu cubro. (coração vazado)

Uma das piores coisas que podem acontecer a alguém é ter que tomar remédios antes de dormir. Quase impossível saber se já tomamos ou não. Fica a pergunta, isso que estou sentindo, é efeito do remédio ou da falta do remédio? O copo com água não ajuda, tomo água toda hora, um copo pela metade não significa nada. Quem sabe uma estratégia para solucionar isso? Que não seja aquelas caixinhas organizadoras que tem os dias da semana marcados. Aquilo me faz sentir muito mais velho do que sou. Copinhos de danoninho dentro da gaveta, deixo uma caneta e faço uma marca no copinho e no braço sempre que eu tomar um comprimido. Pronto! Essa foi fácil, preciso sair e comprar 31 danoninhos.


A burocracia pode ser uma aventura nos dias frios. Os pombos trocando de lugar, balé sujo, menos arquitetura que mistério. Ou até só do gênero passou o dia olhando os vizinhos, a maioria sem máscara. Na vida real, claro, seu trabalho remoto à secretária da empresa concentrado não podia funcionar assim. Ficou tempo demais na internet; sabia bastante bem como era realmente o trabalho remoto à secretária. Seu trabalho já era remoto antes da pandemia. Tarefa repetitiva, ou múltipla, ler qualquer coisa, ouvir áudios que não tivessem relevância com sua vida ou piadas, memes. Por exemplo, aquele gemido de uma atriz pornô soando alto, tirarmos uma nota de alguma música como se fosse parte de um trabalho freelancer remunerado por um idiota que estava pescando em plena pandemia. Pelo menos em casa não precisava ir ao bebedouro, máquina de café e o telefone nunca tocava. Calmo, quieto e concentrado só naquela planilha, a única planilha do dia, longas linhas e colunas com valores vindos de uma pesquisa de mercado. Trinta e sete perguntas respondidas por duzentos e quarenta e dois médicos. Apenas numa linha todo o seu período de trabalho é prolongado. Trabalhe em casa e em breve dormirá no trabalho. Uma pessoa cava um buraco para religar o abastecimento de água, fração de terra, minhocas, nossas calçadas estão cheias de minhocas. A sensação de que ou aquela pessoa não se importa com o que está em nossas calçadas. Sei, no entanto, que, a dada altura, o canhoto que cava pareceu distraído e acertou o cano, e pela fina fresta que saiu daquele corte, a água levou as minhocas e as ferramentas menores. Mesmo assim, e tendo em conta o fardo de mais oito religamentos para fazer até o centro, conseguiu um sorriso de canto olhando o barro mover alicate, canivete e minhoca, o sorriso de uma pessoa que na manhã seguinte teria folga e durante um churrasco desses de quem fura a quarentena queimaria o rosto e o braço esquerdo.

Pestana aberta a buscar água de cano, foi embrulhado como se fosse um presente.


Beep!




Este escrito é parte integrante do conto Como você diz a alguém que está apaixonado por outra pessoa quando esse alguém é você mesmo? escrito durante o período de pandemia de 2020 e é dividido em quatro partes. Identidade Visual @_bolsao

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