• Barulhista

Como você diz a alguém que está apaixonado por outra pessoa quando esse alguém é você mesmo? - 2/4




Beep.

Um outro dia.

Pessoa: Bom dia! Espero que tenha dormido bem.

Yolis: Bom dia. Dormir muito bem, e você?

Yolis: Dormi*

Pessoa: Dormi bem sim. Não me lembro de acordar tão

bem. Daqui a pouco vou retocar a tatuagem, queria te ver.

Pra gente ficar com dor no braço juntos.

Yolis: Ó, vou tentar sair. Aqui em casa tá um caos danado.

:\

Pessoa: Minha sessão está marcada pra 16hs. Vamos nos

falando por aqui.

Yolis: Tudo bem. Meu avô tá internado aqui e com os

nervos aflorados. Daí tenho que resolver umas coisas com

ele. Mas acho que dá pra te ver.

Pessoa: Você mora onde?

Yolis: Jardim Pompéia. Conhece?

Pessoa: Não conheço, mas vou conhecer.

Yolis: Vai sim.

Pessoa: Depois do Horto... longe é Marte. Não achei longe.

Yolis: Isso mesmo. Perto do Santê, Horto.

Pessoa: Quer encontrar por aí?

Yolis: Bom, por mim Savassi é tão tranquilo quanto aqui

perto.

Pessoa: Tudo bem.

Yolis: Acabei de fazer uma amiga linda, linda.

Pessoa: É sempre bom fazer amigos.


Yolis: Ainda mais esses de quatro patas, bigodes e rabinhos

que fazem cócegas.

Yolis: Me dá uma opinião

Yolis: Quero fazer uma tatuagem de 'ligue os pontos'.

Yolis: Daí não sei se ligo os pontinhos com um traço

colorido e fraquinho ou se deixo só os pontos para ligarem

com canetinha.

Pessoa: Acho a ideia do traço muito boa.

Yolis: Talvez só os pontos pareçam uma catapora bem

grave.

Yolis: Pareçam é uma palavra feia.

Yolis: Olha, tá trabalhando? Vou te deixar quietinho.

Pessoa: Tô só resolvendo coisa simples. Você gosta de

contos em geral ou só os do Cortázar? É que eu tenho

escrito alguns.

Yolis: Contos em geral. :)

Pessoa: Depois te mostro então.

Yolis: Tá bem.

Beep.

Pessoa: Andar de ônibus ouvindo piano nunca foi tão bom. O jornal do senhor sentado ao meu lado está aberto na páginas mística do horóscopo. Capricórnio: um relacionamento afetivo está modificando sua vida. É tempo de bons ventos. Num dia como hoje, suas idéias vão ter força e clareza suficientes para provocar uma grande impressão nas outras pessoas. Eu me divirto com isso. Hahaha (emoji com carinha sorrindo)

Yolis: Hahaha (emoji de coração)

Yolis: Desculpa a demora. Tava no banho.

Yolis: Então, acho que eu não chego 16h. Onde é o estúdio?


Pessoa: Acho podemos encontrar depois da sessão, não

quero que me veja chorando.

Pessoa: Fica atrás do Mcdonalds.

Yolis: Tá. Sabe quanto tempo de sessão mais ou menos?

Pessoa: Max. 2 horas. Vamos marcar às 18h.

Yolis: Ok. Marcado.

Pessoa: Na Strobo.

Yolis: Beleza. :)

Pessoa: Yolis... Parece que terei de sofrer um pouquinho mais. Vamos atrasar um pouco. 18h30, sem mais contratempos. Tudo bem? (minhas falas foram um pouco autoritárias)

Yolis: Tá tudo bem bem.

Pessoa: Argh!

Yolis: Doendo?

Pessoa: Só um pouco. Muito!

Yolis: Que dó. Hoje não vai ter abraço apertado.

Pessoa: Pode apertar um pouquinho.

Yolis: Mas eu não vou conseguir apertar.

Pessoa: Casal fraquinho.

Pessoa: Cabôôô!!!

Yolis: Ê. Já tô chegando.

Pessoa: Uhuulll

Yolis: Como tá cheia a Savassi!

Pessoa: opa!

Yolis: Oncetá?

Pessoa: Tô indo pra Status, chego em 1 minuto.

Pessoa: Cheguei!

Pessoa: Não me conformo. Todos os dias alguém diz: não me conformo. Já eu me conformo todos os dias, menos ontem que foi tropeço.


Manhã, engole essa madrugada. Todo adolescente rico gosta de Fiona Apple, acho que nunca aprendi a viver o momento. Talvez é só tentar menos intensidade na vida, mas como fazer isso? Como viver com menos intensidade sem dinheiro?

Yolis: (carinha de coração)

O pai da pessoa adorava ver luta greco-romana na tv, foi o primeiro a assinar tv a cabo do bairro, e só assinou

pra poder acompanhar o campeonato americano. Sempre que ele estava assistindo e a pessoa entrava na sala ele mudava de canal e dizia, palhaçada esses homens se agarrando. Você sabe qual a diferença entre a luta de estilo livre e a greco-romana? A que o pai da Pessoa gostava é um embate de forças e estratégias, vence o lutador que mantiver o aniversário com as costas presas ao tatame. A pontuação é distribuída pela execução de movimentos determinados. Golpes, derrubar a partir de uma posição em pé, vitória alcançada, costas do oponente mantidas no tatame. Vantagem de oito pontos em relação ao oponente, superioridade técnica, como na luta estilo livre, mas nela essa vantagem precisa ser de 10 pontos. Se nenhuma das alternativas for alcançada, o lutador com maior pontuação no fim da luta é declarado vencedor. Mais semelhança entre

as duas lutas, no tatame a ação tem que acontecer na área circular azul escura, se os atletas estiveram no círculo laranja chamada área de passividade o árbitro interrompe a luta. Um dos golpes é uma tática de imobilização onde o lutador dá uma chave de braço no adversário segurando seus braços e cabeça, quanto maior for o tempo nesta posição maior a pontuação. Mais um golpe é um rolê, mais ofensivo onde lutador consegue rolar o seu oponente pelas costas para mantê-lo imobilizado. Por último temos o suplê um dos movimentos mais clássicos da luta olímpica em que o lutador levanta seu adversário enquanto cai para trás e

por cima de seus ombros trazendo o seu oponente consigo. Não existe a modalidade feminina dessa luta.

Notificação: Yollis. Nova mensagem.

Yolis: Tô esse tempo todo pensando em algo pra te falar. Foi muito bom te encontrar e ser encontrada por você.

Pessoa: Entrei no ônibus agora e o cobrador perguntou:

algum problema? - resposta: Sim, acabei de beijar uma

pedra preciosa.

Yolis: Falou isso mesmo? Hihi Já cheguei em casa e fiz

carinho em todos os gatos.

Pessoa: Dessa vez não é ficção, o diálogo é real.

Pessoa: Um cafuné na turminha toda aí!

Yolis: Mais lindo ainda.

Yolis: Não sei mandar coração aqui.

Yolis: <3

Yolis: Não é isso...

Yolis: s2

Yolis: Hihi desisto

Pessoa: Yolis... obrigado pela tarde/noite linda.

Yolis: Obrigada você. Gostei muito mesmo.

Pessoa: Preciso dizer algo: espero não me machucar

contigo. Pois a vontade de viver uma história bonita é

grande.

Yolis: Não te machuco e você não me machuca.

Yolis: Não quero me machucar também.

Yolis: E muito menos te machucar.


Devo iniciar com profunda tristeza o estresse causado pelo arranjo de qualidade duvidosa das lâmpadas de natal que apavoram a praça da liberdade. A rua das selfies, talvez dos falsos sorrisos, e da prosa futurista que lamenta não ter novos modelos de luzes e focos para que mais fotografias sejam feitas.

De um lado, parece que o mundo redescobre Thomas Edison e a lei que governa a gravitação planetária. Mas tentemos nos aproximar com bom senso de uma obra narrativa, patrocinada pela Cemig, que projeta na casa do governador simulações de fogos de artifício e mensagens natalinas interpretadas pelo personagem da coca-cola.


Os personagens migram, enquanto acompanho o estouro falso que soa em caixas de som no volume 11, uma garotinha, cinco anos imagino, segura a mão do pai e olha para o chão. O pai segue hipnotizado pela tela e ela pela enorme lâmpada presa ao chão protegida por uma grade. Por afinidade sigo na fantasia dela, a pequena cospe no vidro da lâmpada que levanta um minúsculo vapor. Ao lado um garoto, imagino a mesma idade, desperta um sorrisinho e dispara sua saliva também, erra o vidro. Ela acerta de novo, depois de mais duas tentativas ele acerta também. Estas entidades encontram na saliva a possibilidade de produzir seus próprios fogos, ao contrário dos adultos, muitíssimos mais reais.

Enquanto a dupla do cuspe manifesta sua mágica, volto o olhar para a tela e para os adultos concentrados nas paredes iluminadas. Em qualquer caso, esta ação dos pequenos provocaria um mínimo fascínio de alguém, mas a tela é grande e o som é alto. Agora já são 6 miúdos a cuspir, revezando os turnos e a levantar névoa. Confesso, me deu uma vontade danada de cuspir também. Mas isso implicaria numa explicação perdida caso algum adulto me visse.


A tela se apagou, muitos bateram palmas para a parede escura e em seguida puxaram as crianças de volta para as lampadinhas e brinquedos bobos vendidos por valores espertos. Definitivamente perdido voltei para casa consolado pela cena. E garanto a todos vocês: a melhor atração do circuito cultural praça da liberdade foi o bando do cuspe. Parece que Wilde estava certo e porque não terminar com uma frase de efeito: Viver é a coisa mais rara do mundo. A maior parte das pessoas existe e nada mais.

Pessoa: Seguimos juntos e felizes!

Yolis: Lindeza.

Pessoa: Cheguei em casa e já levei arranhão do gato.

A pessoa não sabe que a pandemia já acabou, continua saindo de máscara, passando álcool em tudo, acha um absurdo os próprios amigos na rua, fazendo selfies, o mundo aglomerado e a pessoa de quarentena. A pessoa não sabe, não é que ela não acredita, é que ninguém contou pra ela. O iFood entrega sem máscara, o Uber não tem mais álcool em gel, voltaram a fazer churrasco na casa ao lado e com essa Tal liberdade (Só pra contrariar) ao fundo que eu te digo: A pessoa não sabe que a pandemia acabou. A Outra Pessoa sabe.


Outro dia.

Pessoa: Já dormiu né?

Yolis: hehe vou tentar amansar ele pra você

Pessoa: Aposto que consegue.

Yolis: Tomara.

Yolis: Aposto que vou querer ele pra mim.

Pessoa: Todas as coisas aqui querem ser suas. Inclusive eu.

Yolis: E pode apostar que eu também quero.

Pessoa: 3 de janeiro, o dia em que fizemos contato.

Yolis: Gosto do número 3.

Pessoa: O horóscopo do velhinho estava certo, você me

impressionou.

Yolis: (sorri)

Yolis: Ó, minha bateria vai acabar.

Yolis: Boa noite pra você.

Pessoa: Boa noite Yolis!

Yolis: Beijo possível.


Pessoa: Beijos e cafunés de dois braços.

Yolis: E melhoras pro braço.

Pessoa: Se cuida, de manhã terá um bom dia! Melhoras para

o seu também. Fica perto.

Yolis: Tenho certeza de que será ótimo.

Enquanto te contava sobre essa luta me veio um

pressentimento de que essa Outra Pessoa não vai ficar com

a Pessoa, mas eu não acredito em pressentimentos. A

pessoa vai ligar o computador de novo, vai abrir as mesma

abas de sempre: gmail, youtube com a música (Espatódea

do Nando Reis) , instagram, um documento que estava

escrevendo comparando as músicas Perth (Bon Iver) e

Tempo (Sandy). Uma conta de luz com a frase Nuvem

branca sem sardas. O vizinho da Pessoa está ouvindo Rock

with you (Michael Jackson), ontem era Acabou Chorare

(Novos Baianos).

Outro dia.

Pessoa: Bom dia Yolis!

Yolis: Bom dia!

Yolis: Dormiu bem?

Pessoa: Muito bem e você?

Yolis: Muitíssimo bem.

Pessoa: Nos fizemos muito bem ontem. Saudade do teu

perfume.

Yolis: Eu também acho isso. E que bom, né? Lindeza.

Pessoa: Vou trabalhar num texto, mas estou aqui, me chame

quando quiser.

Yolis: Tá bem. :)

Pessoa: Um cafuné Yolis!

Yolis: Um beijo!


Pessoa: Todos os beijos são seus!

A pessoa está escrevendo um romance experimental: a produção da verdade vai muito além da moral, a moral tá por aí, a moral foi ver se a verdade está na esquina, a moral vive nas cabeças libertárias, a moral não ventila nenhuma discussão. Perspectiva ética na formulação de algo tão singular, maldita alma erudita que coloca essas palavras em mim, morre confronto. A nossa prática de vida na forma como qualquer um segue nessa fala: eu abraço como digo coisas no ouvido de alguém. A gente vai confrontar não só forças reativas em nós como também forças reativas fora de pessoas, atitudes, situações ou mesmo mesmo desculpas para conceitos que nos habitam, que ficam naquele duplo. Eu quero uma existência mais singular, mais afirmativa, me colocar nesse mundo dessa forma é inventar no campo afetivo-sexual suas possibilidades, mas como é que eu lido com essas impregnações? Que impregnações são essas que a gente também tá pensando como contraposição do modo vigoroso que vivemos? Entramos no momento em que as relações, enquanto ameaçadas, se refazem e parecem ar rarefeito impedindo a paisagem. Parece um inverno social. De longe se formou algo diferente diante dos meus olhos, talvez fosse uma pessoa segurando um livro. Quando a gente se aproxima vê que é só uma turma muito junta. É assim mesmo. O que era de fato? Uma micro comunidade. Essa comunidade me convidou para entrar, disseram gostar da igreja sem deus - embora seja diversa demais para deidades - há tempos conhecida como cinema. Entrei por gosto e pensei ser provisório, não tenho muita resistência para grupos de whatsapp e interações virtuais com grande número de pessoas. Me chamam ermitão. Imaginei sair logo no dia seguinte, mas gostei da ideia e do filme que iríamos assistir: Dolls dirigido por Takeshi Kitano. Depois de alguns anos como alguns filmes melhoram né? Não que fosse ruim antes. ¨Depois de muitas sessões da tarde na tela da Globo, descobri com um grupo de amigos, ainda na adolescência, que haviam filmes muito diferentes do que estávamos acostumados, é por isso que aceitei o convite do grupo.¨ Ideias boas tem filhotes e eu já imagino um grupo de whatsapp em que as pessoas combinam de ouvir um disco de música brasileira por semana. E a cada fim da audição conversem sobre o que ouviram. Começo a suspeitar que a aglomeração virtual tem lá suas vantagens. Desde 2009 sou um frequentador assíduo desse ambiente, mas comunico pouco, meu bate-papo é musical. De repente, vejo o filme. Ele tem cores, sensações e mil símbolos, e está numa qualidade incrível. Graças ao Stremio, descoberta que fiz no grupo também. Pra quem como eu já se assustava com a facilidade do youtube, esse outro é um assombro só. Ficamos a olhar nossos ambientes e rostos, falamos pausadamente para que entendam que ainda não foi passada a vez ao outro. Mesmo o silêncio entre as palavras é escutado com calma. Sem rompantes ou ansiedades comuns de mesa de bar. A maioria bebe álcool e isso acrescenta alguma intimidade à conversa. Os pensamentos me dão arrepios. Próximos o suficiente para saber o que cada um pensou do filme, sim há uma conversa após o filmes. Por vezes alguns buscam explicações para o que viram, como se não bastasse a mágica e a carga imagética das cores. Mas entendo que a gente precisa resolver alguns porquês. Fora a procura por um realismo tão bombardeado pelo discurso geral das mídias que nos pegam no colo. Certa vez um amigo disse que o cinema evoluiria a ponto de que no futuro entraríamos nas salas para ver um festival de vhs com festas de debutantes de 1995. Tarda muito não. Visto que o experimentalismo avança sobre os escombros dos próprios conceitos. Porque estamos todos olhando para esta tela? Não conseguimos sair daqui. Não é possível esperar ajuda, não virá. Finalmente o filme acaba. Ainda não tenho certeza de que todos terminaram de ver, talvez terminaram antes de mim. Essa coisa de compartilhar pontos de vistas sobre um mesmo alvo é um exercício delicioso. Obra aberta do Umberto Eco, sabe? Nos abraçamos, nos beijamos. As mulheres grisalhas sorriem, comemorando junto à distância. Um dos jovens que acendeu a fogueira corre na nossa direção e a gente diz “Ela conseguiu!”. Ele fica exultante e sai correndo para contar pros outros. Sobre a falésia, de novo muito pequeno, está o cara do cachorro. Contamos para ele também, aos gritos. Tudo porque a gente olhou nos olhos da foca, penso de novo. Essa é toda a diferença. Fazer novos amigos, sem abraços e sem beijos. Comemorando a distância o fato de estarmos juntos. Penso de novo na diferença entre amizade e proximidade. Como na Espanha que durante a pandemia foi permitido passear com os cães e muitos alugavam seus pets para que outros pudessem sair um pouco. Contamos também um com o outro para não sair por aí gritando. * Um domingo que termina com cinema e diálogo, é um domingo em que a inexpressividade de qualquer coisa foi contemplada. Eu me sinto um músculo, sempre me senti. O que quer dizer que sou mais pernas e menos vísceras. Será? Pareço tão quieto tomando meu chá de hortelã. Em qual sentido você diz isso? Talvez por ser tão pouco racional. Me apaixono por tudo e tenho uma pasta com minha coleção de obsessões, padrões estéticos e dramaturgias sonoras. Resumindo, o músculo não sabe porque contrai, mas é assim que acontece. Onde eu estava antes - Contagem -, parece que o músculo não tinha espaço. Isso é um pouco triste, porque ao mesmo tempo fui muito feliz ali. Tive que inventar um lugar, afastar as paredes, levantar o teto e abrir para visitantes. Meu próprio museu de mim, aberto, com uma cobrança de uma taxa de manutenção claro. É sobre isso, escrita automática e confinada. Processo confuso, ontem trabalhei em duas músicas de cantores. À primeira vista é um trabalho comum, mas retocar - digo tocar - o trabalho artístico de outra pessoa é como - não encontro exemplos que funcionam aqui, vou falar mais. Há tempos eu tinha uma pesquisa sobre timbres apreendidos com os meus professores do O Grivo. Essa pesquisa resultou em várias trilhas sonoras para teatro que moldaram muito do que acredito ser música. Quando preciso rever o trabalho de outro artista, sinto que estou num ambiente em que essa pesquisa já não funciona, afinal um outro universo sonoro se apresentou. (tô viajando?) - espero que sim. Desde o ensaio para gravar numa base de rap até a escrita para estruturar um remix de uma música, tudo agora é sobre confinamento e estetização da natureza. Sigo solto, mas com uma coleira que me indica de onde vim. E me envolvo a ponto de ter anotações sobre aquelas músicas dos cantores, como se minhas fossem. (gostei de escrever isso) Tanto faz se a gente está junto pra fazer música, conversar sobre cinema ou rir de algum meme. Esse caos-obra que se tornou a quarentena em que todo mundo virou imigrante de algum lugar da cidade (despatriados dos bares) unidos por uma corda vermelha chamada internet não vai acabar porque a gente vai se lembrar, assim como eu me lembro de Contagem e de Belo Horizonte. Dolls é uma alegoria do teatro de bonecos, o que somos nós olhando para essa tela? Adorei o filme, aliás. * O amor segue ao meu lado, dormindo comigo, brigando, fazendo almoço, reclamando de tudo que precisa ser revisto. Reparação doméstica. (arrisco) O desânimo não pode vencer o amor. O desânimo não entende nada sobre beijos de madrugada e conversas sussurradas no pé do ouvido. Não sabe que é preciso deitar para rolar.

Mais tarde.

Yolis: Como tá aí?

Pessoa: Ainda nas pesquisas.

Yolis: Entendi.

Pessoa: E por aí?

Yolis: Comendo e dormindo.

Yolis: Acho que vou levar o Manoelzinho na pracinha um

pouco.

Pessoa: Faz um cafuné nele por mim.

Yolis: Dou sim.


Yolis: Ah, meu avô recebeu alta.

Pessoa: Que ótimo! Tá mais tranquila agora?

Yolis: É, tô sim.

Pessoa: Estou contigo.

Yolis: Acho muito bom. Também tô contigo.

Pessoa: (Sorrindo) Fiquei muito triste aqui... O casamento

de um amigo acabou hoje. Formavam um casal lindo. É tão

difícil ver uma história linda se despedaçar.

Yolis: Que triste. É tão difícil mas é quase tão natural.

Yolis: Acho que na época da minha bisa não era.

Pessoa: As pessoas se esquecem muito rápido porque ficam

juntas.

Yolis: Sim.

Yolis: Ah! Minha gata cada vez mais prenha.

Pessoa: Tem que tentar arrumar um lugar que coloca os

gatos para adoção. Aqui perto tem uma loja de ração que

faz isso.

Yolis: Pois é. Tenho mesmo.

Pessoa: Eu te ajudo.

Yolis: Quando nascerem vou procurar as pet shops aqui

perto.

Pessoa: Vamos juntos!

Yolis: Vamos!

Yolis: Já tomou vinho quente?

Pessoa: Acho que não. É bom?

Yolis: Quando for inverno eu faço pra gente.

Yolis: Tem que ferver com canela, cravo e mais umas

coisinhas. Fica muito bom.

Pessoa: Depois música e carinhos?

Yolis: Ou antes ou durante.

Pessoa: Acho que devemos ir treinando essa parte, daí

quando o inverno chegar, seremos profissionais.

Yolis: Por mim tudo bem.


Pessoa: Linda!

Yolis: meu bem, vou levar o Manoel pra brincar um pouco.

Yolis: Não vou levar o celular pra não ficar distraída.

Pessoa: Se cuidem. Vou trabalhar.

Beep.



Este escrito é parte integrante do conto Como você diz a alguém que está apaixonado por outra pessoa quando esse alguém é você mesmo? escrito durante o período de pandemia de 2020 e é dividido em quatro partes. Identidade Visual @_bolsao

Marketing Digital @dreamland.digital

Editora @gralhaedicoes

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