• Barulhista

Entre o olhar e o gesto #1

21 junho 2020

A saudade do tempo da troca de e-mails e blogs me fez criar essa cartinha. Mas as pessoas ainda não trocam e-mails e ainda escrevem blogs? Sim, inclusive as pessoas que estão nesse governo lunático, têm blogs inclusive. A saudade é de quando isso tudo era popular, quando eu escrevia sobre O Exorcista em algum blogspot ou mandava um e-mail para o Oswaldo Montenegro que tinha uma resposta automática poética. A internet era só um trem legal, não nos fazia mal. Sem o assombro sem fim de cada dia. A ideia aqui é que essa cartinha dominical seja também semanal e um modo da gente se manter aquecido no frio dessas fibras óticas.  A propósito, fui bloqueado pelo instagram, o garoto Zuckerberg é bastante autocrático e não deixa ninguém sair por aí perdendo seguidores, pune os desobedientes. Há alguns anos tenho problemas com o uso pesado de redes sociais mais pesadas ainda. Fazia parte de todas, nem vale a pena listar, agora aproveitei o bloqueio e saí de todas. Lembro de postar no stories fotos do dia nublado, de um caderno com anotações ilegíveis, de armar uma cena deitado no sofá para ser compartilhada. Qual o sentido disso? De vidas projetadas já basta as que escrevo. Ninguém precisa ver o sofá que eu vi. Meu dia não melhorou por ter compartilhado o ângulo do sofá e o dia de ninguém ficou melhor em ver o meu sofá. No máximo alguém disse: deitado no sofá uma hora dessas? Comecei a pensar que essa coisa de branding pessoal é meio balela sabe? Deixei de criar coisas com real valor para o mercado e fiquei entretendo pessoas que mal conheço. O uso abusivo daquilo estava mesmo me fazendo mal. 

Daí resolvi matar a saudade e evocar a nostalgia. Tempo.

Tempo em que um livro era só um livro. Agora um livro é necessário, urgente, se você não ler esse livro você está por fora. E tem que postar uma foto da capa, de um trecho bonito, de um grifo, de onde estava lendo o livro. O Valter Hugo Mãe postou uma foto num café francês lendo Dostoiévski, correria: cadê aquele Irmãos Karamazov? Era melhor que o modo de vida contemporâneo não houvesse enchido de sentido e de status o fato de termos livros em casa. Devia ter deixado tudo na canção de 1997 de Caetano Veloso: tropeçavas nos astros desastrada... E o trecho em que o Caetano lê "O Vermelho e o Negro" de Stendhal:

"Aqui, diz ele, com os olhos brilhando de alegria, os homens não podem me machucar. " Ele teve a idéia de entregar o prazer de escrever seus pensamentos, em outro lugar tão perigoso para ele. Uma pedra quadrada que ele usou como uma secretária. Sua caneta voou (...) "Por que eu não passar a noite aqui? Diz ele, eu tenho pão, e eu sou livre!" (...) Ao som da palavra alma grande é exaltado (...) Mas uma noite escura havia substituído o dia e ainda havia duas ligas para ir até a aldeia habitada por Fouque. Antes de deixar a pequena caverna Julien acendeu o fogo e queimou cuidadosamente tudo o que ele havia escrito. "

Já neste primeiro momento sem redes sociais retomo o projeto do romance, que não tinha conseguido engrenar com muita disciplina desde 2016. Agora tenho oito páginas novas e sem as distrações das redes a coisa deve andar. Posso dizer que estou escrevendo um novo romance com o mesmo nome e a mesma ideia. Para além da distrações tem a comparação, competição, inveja, tá parecendo campanha contra redes sociais né? Vou mudar de assunto.   Comecei a assistir Midnight Gospel, uma animação que leva a conhecida frase budista "a dor é inevitável mas o sofrimento é uma escolha" às últimas consequências de maneira brilhante, falando nisso continuo meditando todos os dias ao acordar durante 20 minutos. Criada por Pendleton Ward, o mesmo de Hora da aventura, faz dessa animação um campeonato de aleatoriedades mas com o chão do budismo, sua visão de mundo que antepõe e concilia a impermanência das coisas com a onisciência do indivíduo iluminado. Não pensei que fosse gostar, a única série que eu consegui ver foi a incrível Breaking Bad, e quando o Daniel Herthel  Midnight Gospel me indicou fiquei fazendo cara de drone que perdeu o sinal. Mas assisti e me fez muito bem. Olha ele recomendando série. Outra coisa de parar para ver é o file "The painter and the thief" direção de Benjamin Ree, sobre esse eu não vou falar nada, assistam. E obrigado Herthel! Esse movimento fora das redes traz o fim da Live da Louça, acho que é o que vou sentir mais falta, estava mesmo gostoso lavar a louça conversando com a turma, alguma coisa boa tinha que ter nesse trem né gente?. As outras ações seguem firmes: o podcast Eita Noise onde eu falo de Anitta e John Cage e converso com pessoas amigas está disponível nas principais plataformas de streaming e é publicado toda terça-feita, as orientações artísticas também semanais continuam no youtube do Programa Vocacional da região Sul 3, o blog segue um pouco mais devagar e está dentro do site. A medida que coisas vão surgindo no raio de interesse vou inventando, aviso vocês por aqui. 

Voltei a ouvir Múm, alguns sabem que essa banda é o que tento fazer quando penso em música. Isso tem me feito muito bem, afinal, recordar sons é viver de novo um momento. E como eu estava em estado de tranquilidade quando conheci Múm. Não precisamos falar disso, precisamos ouvir. Falando nisso a violoncelista e cantora da banda Hildur Guonardóttir concorreu ao Oscar de melhor trilha sonora com o filme Coringa e levou o caneco para a Islândia. Inclusive saber que ela é a compositora da trilha foi o bastante para fazer Michelle e eu abandonar a partida de Uno em plenas férias em Camburí, litoral norte de São Paulo, e ir até Caraguatatuba para ver o filme. Uma aventura e tanto, que merece virar um conto lá no blog. Uma mulher ganhou o prêmio de trilha sonora mais famoso do mundo, encho os olhos d'água, essa profissão de inventar trilha é muito masculinizada (qual das técnicas não é né?) e porque não dizer que os quatro cavaleiros da trilha sonora, John Williams e cia, não fazem nenhuma questão de mudar isso. Mãos em prece.  Quê mais... deixa eu ver... ah sim! Estou definitivamente aprendendo a ler em inglês. Depois que comprei o livro Where the heart Beats escrito pela Kay Larson tenho feito 40 minutos de leitura diários, parece pouco, mas em inglês my friend o bicho pega. Se trata de uma biografia do John Cage com base no pensamento zen-budista. Coisa linda demais! Além disso, tô ouvindo o Cage e O Grivo também. Até resgatei meu iPod que tem umas gravações que, orgulhosamente, eu mesmo fiz de concertos dos Grivolinos em Belo Horizonte. Não vejo a hora de aprender inglês muito bem e comer o Literary Hub com farinha de mandioca. Já ultrapassei as mil palavras que tinha combinado comigo mesmo de escrever aqui, sigo com meus TOCs: tentando mandar áudios no WhatsApp com minutos redondos, podcast de 22 minutos, mil palavras na newsletter, fazer músicas em 90bpm (que o funk 150bpm me perdoe) e arrancando pedaços dos polegares. Mas nada que modifique o padrão de pensamento que vai de Fábio Jr à Slipknot num segundo e que toca músicas muito tristes em churrasco de domingo. Ficamos combinados de que todo domingo (entre meia-noite e o meio-dia) vou enviar pelo menos mil palavras sobre alguma coisa entre o olhar e o gesto. Caso se desinteresse, não tenha vergonha, o botão de desinscrever deve ser usado neste caso. E caso tenha gostado muito a ponto de querer indicar para alguém, também pode indicar à vontade tá? Deixa eu ver se não esqueci de falar nada. Ah sim, a turnê Natura Musical do Matéria Prima, em que eu fiz eletrônicos ao vivo, está na íntegra no youtube dele, inclusive o Matéria tá cheio de novidades lindas, vale acompanhar esse mestre. Pronto. Até a próxima. Vou adorar se animarem responder à cartinha. Escrevam à vontade. Boa semana para vocês! P.S.: em julho tem estreia de trilha sonora para teatro aqui em São Paulo. 

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