• Barulhista

Entre o olhar e o gesto #2

28 junho 2020


Estou viciado na Madison McFerrin, sim ela é filha do Bobby, mas isso não faz muita diferença pra mim (claro que faz!) pois além da mágica de reinventar o soul a cada sílaba, ela compõe de um jeito muito novo. Quase choro (Na verdade choro). Também ando escutando Nina Simone, queria saber escrever de um jeito próximo ao que ela canta. Imagina?! As horas passam num outro padrão com aquela voz, ainda bem que existem pessoas que cantam como se a vida não fosse uma causa perdida. 


Na segunda-feira tive reunião do projeto vocacional durante toda a manhã, o projeto da secretaria de cultura da prefeitura de São Paulo onde oriento a linguagem música. Tem sido uma orientação pra mim mesmo fazer parte disso, pois são muitos artistas orientadores e acabo assistindo muito do que eles fazem. Tô de olho nas linguagens de teatro e literatura. Falando nisso, refiz o desenho do site e coloquei mais dois livrinhos lá pra baixar, devagar vai ficando organizado e com a história toda. Após a tal reunião senti falta do instagram, peguei o celular e não tinha nada pra fazer, no lugar onde  ele ficava na tela agora está o Uber, fico sem saber se guardo o telefone ou faço uma foto, guardo. Essa coisa de foto também mudou muito, agora apenas vejo as coisas, fotografia mental, o sol derrama cor pelas coisas e eu fico só olhando. Tá tudo aqui na minha timeline mental. Chamei dois amigos pra participar da minha próxima orientação, uma já topou, vamos simular uma conversa via áudios de whatsapp. Burlar caminhos, isso é uma delícia mesmo. Quem é que vai descobrir que não era uma conversa? Quem é que vai ouvir essa orientação? Jogamos uma pedra, vê o caminho que ela faz, mas nunca sabe onde ela vai realmente parar. Viva o diário público. 


John Cage: about Cage Vol. 4 foi o disco que mais ouvi essa semana, ele tem apenas três música:


1) Two5 40'00"

2) Solo for tuba 7'50"

3) Solo for sliding trombone with Fontana Mix 17'31"


Qualquer dia arrisco uma meditação de quarenta minutos ouvindo a primeira. Essa coisa da duração de uma música é uma loucura né? Lembro de escutar Basket Case do Green Day em 1994 e pensar numa forma de fazê-la durar o dobro do seus três minutos. Aliás, essa é uma das músicas que mais ouvi na minha vida. (hoje eu tô top 10)

Os funks do canal Kondizilla tem em média dois minutos, já ouvi até alguns de um minuto e quarenta. A clássica Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band dos Bitous não ultrapassa dois minutos. 


Fico pensando também na duração desse momento, pandemia e o escambau, a sensação de prisão domiciliar e uma proximidade com a ficção científica sem tamanho. Para passar o tempo dia desses fiz uma limpa nos meus cadernos de anotações antigos e encontrei umas coisas bem divertidas, tais como uma lista de perguntas que não são realmente boas, mas me diverti relendo:


. Todo mundo pode ser artista?

. Tesão sem álcool é amor?

. Padre bate punheta?

. Posso estar carente e ser legar?

. Teatro é filantropia?

. Para que serve uma entrevista?

. Freira bate siririca?

. As pessoas que falam sozinhas tem mediunidade intuitiva?

. Quem mexeu no meu pão de queijo?


Me considero um bom alfarrabista, junto muitas ideias em papéis e sou bom em não rabiscas as páginas. Poderia ganhar um bom dinheiro fazendo isso, escrevendo coisas aleatórias e as mantando organizadas. Assim como gostaria de depositar um dinheiro para as pessoas que fazem memes. Essas atividades deveriam ser remuneradas. Talvez seja só o meu olhar sobre as coisas que gosto. Não sei mais se meu compromisso é com a criação de um trabalho artístico ou se me tornei um funcionário das ideias de outras pessoas. Seja lá qual for a diferença, não levo isso muito a sério. Outro dia comentei com Michelle: eu não levo nada a sério. E penso que isso é seríssimo. Sou bom em não levar as coisas a sério, é preciso treino, ando treinando pouco, afinal sem dinheiro precisamos de alguma seriedade. Não dá pra rir sem dinheiro. Como assim você não vai entrar numa premiação competitiva? Não vou e pronto. Que ideia maluca, você poderia ganhar dinheiro. Há outras formas de ganhar dinheiro que não envolvem competição. Eu não sei direito quem eu sou, nem que diferença faz quando sabemos quem somos. Montanhas são montanhas. ((sonho))


Continuo longe do delírio coletivo, sem usar nenhuma rede social, mentira, atualizei meu skoob, mas lá é só pra guardar as leituras. (quem é que usa skoob né?) Nem devia ter falado isso aqui, porque vai que isso conta contra mim de alguma forma. Alguém vai dizer: mas ele tem skoob e posta coisa lá. Agora já foi. 

Não senti falta de saber nada de ninguém do instagram, não senti falta de ninguém no twitter, mas senti muita vontade de postar. Uma vontade muito forte de dar um like, quase pedi pra Michelle deixar eu dar um likezinho no instagram dela. Aquela fissura de fazer um story sabe? Não sabe né? Aposto que já olhou seu insta hoje, bando de viciados. Caramba, tô ofendendo o leitor, é isso mesmo? Desculpa aí. Acho que a abstinência está de alguma forma sendo direcionada nessa newsletter. A outra foi tão bonitinha, toda calma, esperançosa até, aí venho nessa tormenta. Vamos respirar juntos. 


Estou trabalhando numa trilha sonora para uma peça de teatro que vai acontecer no Zoom, confesso que tive algum preconceito com esse programa, não sei se pelo nome ou pela super popularização. Tamanha publicidade me afasta das coisas, bobagem, muita coisa ruim não é vista por aí. Já a clássica Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band dos Bitous não ultrapassa dois minutos. 

O espetáculo se chama 4, 5, 4, 3... UM PASSO POR VEZ pensado pela Cynthia Margareth da Aflorar Cultura. A peça já existia e fui convidado para repensar a trilha da versão presencial, neste momento estamos testando uma versão remota. Tenho descoberto muita coisa em criar e manipular a trilha sonora daqui de casa. A primeira é que é possível trabalhar com áudio com muita qualidade de maneira remota, a segunda é que isso não tem graça nenhuma. O teatro só existe mesmo quando tem aglomeração. Fica faltando abraço, comer junto, falar mal da direção, fazer piada com pedaços do textos, fazer piada com pedaços do cenário, se emocionar quando a peça termina, se emocionar quando alguém do seu lado se emociona. eu posso fazer isso à noite toda, não vão faltar motivos. 

O espetáculo está dentro de uma Mostra, é uma volta aos palcos em uma desmontagem sobre uma produtora atuando como produtora na função de atriz, confuso né? Foi a leitura que fiz, ainda bem que não sou eu que vendo o espetáculo, mas garanto que é importante ver. Deixo o link aqui caso alguém se interesse: https://www.sympla.com.br/solomasnaoso


Quem escreverá a história do que poderia ter sido?


Assim começa um dos espetáculos que trabalhei na trilha, e essa frase me acompanhou a semana inteira, seja pelas escolhas, pelas palavras, pelas ações ou mesmo pelo céu que toda hora muda de formato e não parece se importar com o espectador. Este contexto que nos tornou passarinhos em gaiolas já conhecidas também não parece mudar tão cedo. E o que estaria acontecendo se não estivéssemos numa pandemia. Acabo de saber da morte de uma irmão de um grande amigo. Mando uma mensagem de pesar e de algum conforto, dentro do que entendo ser conforto no momento em que o desconforto vira sombra, acidente de carro em Goiás, mais novo que eu. Mais novo que eu, isso é de um egoísmo né? Quando a gente se depara com a morte de alguém sempre vem  aquela sensação de: e se fosse eu? 

Como é que eu não vou levar a sério um momento desses? Penso que é meio como eu enxergava as pessoas que saíam do ônibus quando eu ia de Contagem para Belo Horizonte e entendia tudo como um teatro. A pessoa saía pela porta e saía de cena. Quem entrava pela outra porta, entrava em cena. Um balé duro com música concreta e o “Princípio de Heisenberg” em que o observador que muda a obra, é o espectador com a sua formação, sua disponibilidade afetiva, intelectual, que constrói aquilo ali. Como agora enquanto escrevo imagino sua leitura dentre as 52 leituras que são feitas (em teoria essa cartinha é enviada para 52 e-mails) num domingo que chove em São Paulo, meu chá esfriou e eu continuo pensando na morte do irmão do meu amigo. Não pensei que iria terminar essa cartinha de um modo tão grave. Mas é grave também a graça. ((estou sorrindo de olhos fechados)) Lembrei do Paralamas: cuide bem do seu amor. 


Ah! Fui convidado para falar sobre trilha sonora numa mesa em Alagoas, vai ser no fim de julho, aviso vocês. 

Boa semana pra nós, me escrevam!



P.S.: um trecho do livro Where the heart beats que tô pelejando pra ler em inglês diz:(perdoem a minha tradução) 


Robert Oppenheimer - que havia descoberto o Bhagavad Gita na escola durante uma busca pelo auto-equilíbrio - provocou o clima ao invocar Vishnu: “Agora me tornei a Morte, a destruidora de mundos.

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