• Barulhista

Entre o olhar e o gesto #3

05 Julho 2020

Acabei de enviar a segunda cartinha e já estou aqui escrevendo a terceira. Quantos erros de digitação deixei passar nessa última hein? Misericórdia. Mas isso é bom, ando numa prática de desapego que possa por lugares que nem imaginava. Exercitando deixar os erros andarem com suas próprias pernas. Vai Erro! Levanta-te e anda. E se a cada dia moro num livro diferente, porque tenho que fixar grafias únicas e corretas? (já começou a briga) Quando criança me perguntavam o que eu gostaria de ser quando crescesse, eu respondia que gostaria de trabalhar no He-Man, eu não queria ser o He-man, queria trabalhar lá. Na adolescência eu cismei de ser calígrafo, isso explica porque tenho duas playlists grandes de caligrafia no youtube. Fiz um temporizador zen, um video de 22 minutos de silêncio com um som para despertar no final. Publiquei no meu canal do youtube e claro que algumas pessoas pensaram que fosse uma música. Depois de algumas reclamações deixei no privado. Entendi que realmente não era pra ser público, e sim só um temporizador. Porque não usar o celular ou um cronômetro online? Porque sou eu fazendo, é isso que eu faço. (ou penso que faço, ou dou essa desculpa) Estou compondo uma música nova, ainda sem título, pensada depois da leitura do conto "Federer como experiência religiosa" do David Foster Wallace. Penso tanto na escrita de DFW que é como se eu já tivesse falado dele em outras cartas, mas esta é só a terceira. 

se você nunca viu esse rapaz jogar ao vivo e então o vê, em pessoa, sobre a grama sagrada de Wimbledon, enfrentando o calor literalmente destruidor seguido de vento e chuva de uma quinzena de 2006, você está apto a vivenciar o que um dos motoristas de ônibus a serviço da imprensa do torneio descreve como ‘uma experiência quase religiosa’. […] Porque ela existe. É difícil de descrever — é como um pensamento que é também um sentimento. Não seria correto extrapolar ou fingir que há nisso qualquer espécie de equilíbrio equitativo; seria grotesco. Mas a verdade é que a divindade, entidade, energia ou fluxo genético aleatório que gera crianças doentes também gerou Roger Federer, e olha ele ali. Olha só isso.

Para transpor este sermão da montanha tenístico em música a ideia é tocar nos intervalos das palmas de uma partida de tênis. Enquanto a bolinha estiver em jogo há composição, durante as palmas há pausa. Ainda não decidi se deixo as palmas ou só o silêncio porque ainda não encontrei os motivos certos para nenhuma das duas escolhas. Qualquer coisa que eu disser a partir daqui é invenção, porque eu estou parado neste ponto. Essa era a inquietação literária de DFW, o momento em que o ego desaparece e você é capaz de ofertar seu amor como um presente sem esperar nada em troca. Quando então o presente fica no ar, como um saque de Federer, entre o remetente e o destinatário e daí a iluminação de que não pertence a nenhum dos dois. A única palavra que temos para este tipo de presente é "oração".

Sua boca é só um ensaio. (escrevi isso no caderno e pensei que deveria estar aqui também) Fico buscando explicações que não precisam existir, não quero usar esse nosso espaço como terapia (ah agora que você diz isso?) pareço sempre começar a criar do meio e só no fim encontro algum modo de iniciar. Não sei porque mas isso me lembrou de Diário de um mago do Paulo Coelho.  Tenho escutado bastante dois discos: Dança Sinfônica do Marco Antônio Guimarães e a trilha sonora original do filme Midsommar composta pelo Bobby Krlic. Inclusive tem um música chamada Gassed nessa trilha que deu uma ideia para uma dança, alguém sentado numa cadeira dançando essa música. Pensei em fazer um video pra mostrar pra vocês, mas tudo tem limite né gente? Seria mais ou menos como um alongamento que  segue a duração das cordas, cada parte do corpo representa uma das notas, assim todas as partes alongam mais ou menos ao mesmo tempo. Uma coreografia aleatória já que fica por conta de quem dança decidir qual parte está ligada a cada nota.  Dois filmes nessa semana: Hereditário e Midsommar, ambos do Ari Aster, 34 anos de idade e o moço escreve e dirige uns trem chique. Caso não tenha visto, recomendo os dois. Esta semana não gravei o podcast Eita Noite, muito trabalho com as trilhas sonoras, mas devo compensar gravando dois nesta próxima semana. Em tempo, aceito sugestões para o podcast. :) Publiquei a oitava Orientação Artística do Programa Vocacional 2020, nela tenho uma conversa rápida sobre trilha sonora para cinema com o André Abujamra. Me impressiona ver como cada compositor tem sua própria ideia geral do que é um pensamento de trilha sonora. Digo que me impressiona porque o cinema americano vive nos empurrando padrões, e a gente vive seguindo, mas mesmo seguindo a gente tem um pensamento (não queria escrever a palavra autoral aqui) pessoal. Link aqui. spam --> Procurando uma Sugar Baby? Tenho recebido isso a cada dois dias, comentei com Michelle sobre isso. Ela comentou de volta: dá uma olhada na sua conta bancária. risos! Como funciona o spam não é verdade? Sugar Baby, porque eu daria o dinheiro que não tenho para uma pessoa que não conheço gastar e me mostrar com o que gastou? Não dá vontade de fazer um espetáculo de teatro sobre isso? (não responda) É que tem horas que penso que o único lugar seguro para ter essas ideias é o teatro.  Vão reformar a casa vizinha a nossa, por isso pediram para fazer um gato aqui na nossa casa para poderem usar máquinas e sei lá o que mais. Então agora eu sei como samplear energia da Eletropaulo. O Seu Walter que fez o serviço para a dona da casa ao lado disse: Vou fazer de um jeito que vai ficar bem fácil de desfazer depois. Eu mesmo fiz isso em casa uma vez, mas fiquei com peso na consciência e desfiz. Quem sabe estivesse querendo se desculpar ou aliviar o fato de que estava cometendo uma contravenção e eu como cúmplice observava e permitia aquilo. Tá lá o fio pendurado memorando o ocorrido. Não vou negar que me deu vontade de instalar um chuveiro na casa do lado e tomar banho lá para economizar energia, mas cá entre nós, nesse frio economizar energia é ficar quieto. Continuo sem redes sociais, a única rede que usava de forma cotidiana era o Instagram, por agora entrei porque começou a seguir sozinho pessoas que não conheço, entrei lá para continuar sem seguir ninguém. Faz bastante tempo que eu escrevo e compartilho o que eu escrevo, primeiro em blogs, depois nas redes, mas ultimamente a perspectiva de fazer isso só não parece horrível aqui. É difícil também esquecer que cada passada de olhos pelo feed não é um entretenimento, mas sobretudo uma fonte de raiva, inveja, vergonha alheia e qualquer outra coisa negativa que você pode pensar.

Continuo manipulando ao vivo a trilha sonora do espetáculo 4 5 4 3, espetáculo solo de Cynthia Margareth que está em cartaz naMostra Solo mas não só. Sinopse: 

De casa, no abismo de experimentar o fazer online, Cynthia Margareth se desmonta em camadas, dando a ver a origem de seus procedimentos como produtora; enquanto se desnuda, revela que seu ofício está profundamente ancorado na menina que foi, na mãe que é, na mulher que se lança. Seu fazer se baseia na sua capacidade de articulação de pessoas, ideias, sonhos e experiências vividas, que se transformam em saber, método e ação. Mas também e muito na crença de que a vida deve ser celebrada e vivida a cada conquista, a cada aniversário, a cada engano, na intensidade e na confiança da queda.

Por fim deixo cinco videos do meu histórico do youtube desta última semana:

Boa semana pra nós, me escrevam!

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