• Barulhista

Entre o olhar e o gesto #4


12 Julho 2020



O que é o sofrimento? Ou ainda: O que é o sofrimento, não é mesmo?

Compaixão é quando o seu olhar é múltiplo e ele aspira que o todo se livre do sofrimento. Quando meu amigo reclamou que sua esposa estava muito exigente o tratava mal, minha primeira reação foi de empatizar com a sua dor e logo me vi contrário aquela mulher. Mas quem é aquela mulher? O que ela está sentindo? Empatia demais não cheira bem. A não ser que dentro dela exista um olhar global. Que trem é esse que nos deixa assim? Saber o que está por trás de cada situação. Escutar para compreender e não só para responder. Eu sei que isso tudo soa como uma conversa de hippie-de-Pinheiros-couch-white-gratidão-people-zazen-problem-namastê - nada é uma coisa só. Bom humor e inteligência, costumo andar com esse problema no bolso, já não posso levá-lo para um passeio pela rua, mas garanto que ele segue aqui. É bastante disso que se trata o que estou escrevendo desde 2016 e que chamo de romance. Por isso o nome Curvex no terceiro olho, mas essa cartinha coletiva de hoje não é para explicar o meu romance, é para desaguar. Para que pelos meus dedos vocês, meus amigos, me ouçam e me compreendam. É muito gostoso responder, mas acredite, é ainda mais gostoso ouvir. 


Semana cheia de ensinamentos sobre escassez, comunicação não violenta e sons misteriosos do além:


Nem todo mundo sabe o meu nome, todo mundo espera que eu não diga o meu nome, mas porque não posso ser Barulhista e seguimos para outro patamar de palavra molhada? Meu nome é o que eu disser que é ou o que você espera que seja? Essa cartinha vai ser bem narcisista, assim como as outras todas. 


Nesse julho voltei a usar o método Bullet Journal, desde que conheci o GTD (outro método) uma sigla para Getting Things Done, eu experimentos formas de organizar as coisas que saem e entram em mim. Quem já esteve numa discotecagem minha sabe o que quero dizer: tocar Morbid Angel e Fafá de Belém com a mesma vontade é algo a ser no mínimo organizado. O Bullet Journal, ou Bujo para os íntimos, é o menos burocrático dos jeitinhos de organização e também o mais barato: uma caneta e um caderno e pronto. Daria pra fazer assim no GTD também, mas depois que você começa a praticar o GTD muitas ideias de projetos, pastas e subpastas surgem e quando percebe você está morando na Kalunga. Eu devia apresentar o Bujo com mais calma e talvez mostrar fotos do meu caderno (como sempre fiz) no entanto, quero mais registrar que meu recorde de apenas 2 dias por mês sem escrever no diário e de ter 90% das tarefas organizadas e registradas tem me feito bem. Quem sabe um dia eu faça aqui ou no Eita Noise um pequeno guia do meu jeito de usar o Bujo? Você tem interesse nisso?


Falando em Morbid Angel (risos!) eu voltei a ouvr Black Metal. Pois é, essa brincadeira de ser eclético tá indo longe demais, mas o fato é que me faz bem expurgar algumas coisas ouvindo sons de possessões demoníacas - como é o caso do single Spirit Possession da banda Spirit Possession ou da banda Voidceremony na música Desiccated  Whispers. Talvez seja a representação sonora de uma agressividade que não admito pra mim ou ainda um teste meditativo de respirar com calma no caos. Mas calma aí, a música que eu mais ouvi essa semana não se parece nadinha com o canto gutural desses senhores: Fafá de Belém - Alinhamento Energético tem um clipe delícia demais e é a tradução desse momento pandêmico. Caso vossa senhoria não tenha botado os olhos e ouvidos, bote. (a música é de 2019, mas foi feita pela Letícia Novaes “Letrux” para 2020)


Teve Eita Noise!!! ok, eu disse que haveriam dois, mas consegui fazer um - olha que chique! Prometo que essa semana... melhor não prometer nada. 


Tô estudando literatura experimental, para além do grupo Oulipo e do Burroughs, coisa semiótica analítica mesmo, braba igual pinga sem limão. Apesar de já desgastada, a palavra experimental ainda alimenta muita coisa no que eu faço. Daí nesta fase de isolamento e de cursos livres gratuitos da USP, lá vou eu inventar de derrubar meus ombros e embrulhar estrelas em novos assuntos. (apesar de já conhecidos) 


Aquela coisa de que tudo já foi feito, mas você ainda não fez tudo do seu jeito. (frase de efeito do dia)


Punição e recompensa no meio da escrita e leitura. Não li uma página de livro nenhum essa semana. Foi uma delícia ficar longe dos livros, infelizmente foi para ficar perto das telas (ay se fosse o céu), satisfeito agora posso voltar com prazer. Uma vez me perguntaram quando eu iniciei o hábito da leitura e eu respondi que ainda não tenho o hábito, tem livros que dá vontade de jogar Atari e outros que dá vontade de espalhar pelo mundo. Mas hábito mesmo eu não tenho, eu preciso sentar como se fosse lavar a louça e começar a leitura. Ler é um trabalho muitas vezes bem chato e árduo, no meio do caminho eu descubro coisas lá dentro daquela chatice que muda tudo. Talvez eu mude essa minha opinião daqui a pouco e digo que adorava ir para a biblioteca na adolescência e que tive amigos que liam Manuel Bandeira e até criamos a Academia Contagense de Letras. Mas acho que ainda assim não tenho o hábito, as redes e o computador sabotaram muitos hábitos por aqui. Escrever sim é um hábito. 


A punição nunca funciona. Fazer as coisas porque terei algo em troca e não porque sou responsável pelas coisas foi durante muito tempo um pilar (acho tão chique a palavra pilar) do meu pensamento. Agora, vejam só, quando estou prestes a ser chamado de Seu Barulho, escolho com mais calma o que vou fazer e dizer e isso tem funcionado pra mim. Esta semana eu tive uma conversa polêmica com uma artista trans, estava incomodado com uma questão e acabei perguntando em público. Confesso que me arrependi um pouco de ter feito a pergunta em público, ao mesmo tempo pode ser que outra pessoa entre as quase 70 que estavam on-line tivesse esta mesma vontade. 


A pergunta era de um incômodo, e porque não dizer irritação, com alguns comentários e mesmo olhares (porque tem olhares que a gente sabe que são sucateadores de vivências) que presencio e me sinto no dever de amplificar para que sejam vistos. E como vivo neste não-lugar: nem preto, nem branco, periférico funkeiro que ouve Bach, macumbeiro que medita, quero também em mim um deslocamento do campo do saber, que me force, no lugar de artista e educador (tentando ser uma pessoa mais útil), buscar outros referenciais para ler esses trabalhos e criticá-los a partir das matrizes onde ele nasce.


Quando vejo essa galera fingindo que gostou pra não ser a pessoa que critica "pretes" eu só vejo racismo, porque muito provavelmente essa pessoa não fez qualquer deslocamento do seu próprio campo do saber, se ela tivesse feito, ela poderia dizer tranquilamente não gostei ou ainda que não tinha referencial para qualquer juízo de valor. Penso que de fato é impossível ler as poéticas dos corpos pretes e trans sem desconstruir nossos referenciais brancos heteronormativos?


A resposta da artista foi muito linda, mas também agressiva, saí da conversa de certa forma como um macho-escroto, mas isso me estimulou a enviar um e-mail para a artista. Agora estamos num diálogo sobre arte trans e paralelos de culturas que não diferenciam arte de política. A gente sabe o que somos, mas não dá pra saber o que todo mundo é. O importante é ter o olhar múltiplo e escutar para compreender. 


Gente é como música, só existe quando você escuta. 


Para além da discussão do lugar de fala, é preciso se lembrar que também existe o lugar de escuta. Ouça, ouça muito, depois dá uma olhada no que está por trás do seu pensamento, ouça de novo, dê mais uma olhadinha, ok, agora fale devagar. 


Uma semana bonita pro cês tudo!!! Beijo e com deus.



P.S.: 

Devo fazer mais Lives do estilo Pescaria Sonora esta semana. Pescaria sonora é um tipo de discotecagem ativa, eu dou play em música que gosto e toco por cima. 








0 visualização