• Barulhista

Grushenka



Enquanto escrevo ouço o som que vem da aba ao lado, o som de um campeonato de Disc Golf que é um golf que se joga com um disco de frisbee. Costumo escrever ouvindo campeonatos desse tipo por conta da insistência do som de concentração, erro e acerto. Podia ir até ali fora depois das zero hora, olhar o céu de São Paulo com menos poluição. Faz muito tempo que estou sem vizinhos, ambos os lados, só ficou o da frente que tem um poodle que participa de todo o movimento da rua. Ele diz: fiquem em casa! Sempre há um motivo para um cachorro latir. Hoje saiu o Grushenka no spotify, disco que gravei em Belo Horizonte em 2014, dois meses depois de ler o romance do Dostoiévski de 1879. Lembro de terminar a leitura e ligar para um amigo como se algo estivesse pegando fogo perto de mim. Ele diz: faz um disco! Aqui, como durante os outros discos, há muitas cenas e passeios que soam para além deste ponto de partida, no caso Os Irmãos Karamazov. Começa com um anúncio de seu próprio nome, Grushenka é a primeira faixa que compus para esse disco. Tinha descoberto o timbre da bateria numa pasta que encontrei num blog de baterias eletrônicas dos anos 90. Quando a gente escuta não parece, mas a primeira coisa que toquei nessa música foi o ritmo. É nele que a força da personagem se amplia. Além disso é uma música cíclica, o fim é o mesmo loop do início, criando assim essa atmosfera infinita desse caminho. Na próxima faixa, você acompanha os trajetos de quando eu pilotava uma motocicleta e um tipo mapa se constrói. Cada timbre tem um tempo. O número de timbres e a duração das transições. Duas pessoas numa moto que andando devagarinho num dia útil. Realmente fiz essa música depois de passear com as duas mãos na cintura, nunca mais vi essas mãos. As estruturas queimadas. O carinho, quando há carinho. Mas entenda, eu não fiz essa música para que ela fosse uma música de amor. Ela é sobre a despreocupação. Pequeno conto de insônia é velocidade. Não tenho muito mais a falar sobre essa música. Ela tem um revestimento grosso que é disfarçado pela fantasia inicial desses sinos sintéticos. Também não quero aqui ficar lendo as minhas músicas como uma cadela lambendo as crias. Mesmo porque esses filhotinhos já tem seis anos. 417 é talvez o símbolo mais abrangente e impressionante da distância. Se trata de 417 quilômetros de distância. O tédio e a hostilidade de estar longe. Lembro de uma amiga comentar, após ouvir, que eu havia feito uma música que demorava muito pra engatar. Graças aos timbres agudos que transportam a infância e o abraço aqui pra perto. Querência é pra dar um quentinho. Foi feita pra isso, funciona comigo. Cortecostura não estava no disco, foi composta na mesma época para um desenho que vi, fiquei tão louco pelo desenho que pedi a artista e ganhei de presente. Uma música feita para um desenho. Feita também para uma ideia de cores, linhas e agulhas. Depois de dormir, a frase inteira é: depois de dormir te vejo. É sobre, como o próprio nome diz, sonhar. Foi feita para uma conversa que tive com uma amiga sobre a falta que faz as pessoas que morrem. E sobre a possibilidade de sonhar com elas e receber mensagens, abraços. Não tem explicação, mas gosto de ouvir esse disco de olhos fechados. Seja como for, este é um disco sobre o feminino. Grushenka é o feminino que me modificou no livro e na vida. O assombro que essa experiência me trouxe e que ainda faz tanto sentido quando escuto. Fico mesmo feliz que agora mais pessoas poderão ouvir e espalhar esse som feminino. E sobre o campeonato de Disc Golf, quem ganhou foi Ricky Wysocki. Parece que entendo né? Parece que estou compartilhando algo com muita segurança, mas não pense nisso. Tive que pesquisar aqui pra escrever esse nome e tentei escrever sem ouvir o disco - apenas o som de concentração, acerto e erro. Então, foi por isso que levei tanto tempo para escrever esse texto.


Ouvir Grushenka no Spotify.

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