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  • Barulhista

Textura



Não sei exatamente como você é, e isso não é um pedido para que mande uma fotografia, por favor não mande. Não é sobre te olhar, talvez se fosse possível enviar seu perfume eu aceitaria. A descrição do perfume detrás da sua orelha esquerda depois que minha língua fazer passeio. Existe uma beleza em descobrir uma pessoa pelas palavras dela que nenhuma fotografia consegue dar conta. O som da sua respiração na minha boca logo depois das mãos agarrarem sua cintura. Parecia felicidade ontem, vinte e quatro pessoas sentadas na grama sintética, uma conferência de diferenças. Talvez fosse isso mesmo que esperava de uma casa que dissessem minha. Fui olhando os corpos, as roupas, os gestos, os rostos, os timbres das vozes, o que era dito. Política e dança no mesmo espaço tensionando o erotismo de quem passa. Erotismo-acidente, desses que esconde o prazer na simplicidade. Me perguntaram: tem um carregado pra esse tipo de celular? Fiquei alegre por poder ajudar, a gente devia ter todo o tipo de carregador em casa, quando você entrega um carregador de celular pra alguém, tem sempre um sorriso de alívio no rosto de quem recebe, como se o que a gente entregasse fosse um abraço. Três horas lavando quiabo pro caruru, mais duas horas picando. Descansei nos ossos alheios e então o pensamento coletivo aconteceu, o povo do teatro tem isso de manter o coletivo no topo da pirâmide, quando terminou não havia uma louça suja, uma coisa fora do lugar, não parecia ter passado ali vinte e quatro pessoas e uma festa. Ontem à tarde o teatro veio até mim e quis ser pedra. Meu boné com o símbolo do Atari balançando na cabeça de um pernambucano, esse me ensinou que não se entrega uma faca direto para a mão do outro, se deve colocar na mesa e deixar que o outro pegue. "aqui no bairro a água acaba depois das 20h" Nem que todas aquelas bundas rebolando e se roçando fossem as mesmas carregando as cadeiras, varrendo, organizando o espaço pra fazer caber a tranquilidade no fim do dia. Impossível imaginar todas essas pessoas, vindas de vários lugares do país, babel de sotaques, conversando sobre um mesmo assunto em voz alta, duas travestis pretas e duas travestis brancas, um bebê de olhos azuis, uma mulher com rosto de xilogravura-cordel fazendo aniversário, muitos cabelos afro, alguns cabelos lisos, a comida baiana perfumando a música de axé, sete quiabos com mel, um dia crespo na memória da grama sintética. Colocar significado em pessoas não é mesmo tarefa fácil, ao contrário dos objetos, respondem de maneiras diferentes ao mesmo estímulo. Você sabe onde estão seus amigos? Sei onde está um deles. Não peça desculpas, fique feliz. Tem umas maciez no dia, mas não entenda isso como um poema, eu não entendo nada de fazer poema, colocar significado em palavras não é mesmo tarefa fácil. Preocupação melhor é manter aquecido o tempo.


O principal sinal é um pensamento que sempre volta na cabeça dele. Está andando na avenida João César de Oliveira, na altura da passarela, esquina da rua Bélgica, fumando um cigarro — não se preocupe com ela — disse a ponta do cigarro. e de olho no pessoal que passa correndo até o ponto de ônibus, são quase dezenove horas. As calçadas são insuportáveis, cismam torcer os pés, toda pisada é desagradável em Contagem, trecho de derrubar idosos. Na esquerda tem uns prédios de seis andares recortados pelos anúncios da candidatura de Altamir do PSDB, os anúncios já estão desmoronando e um pixo cobre os dentes do candidato: CURVEX. E é aqui que ele sabe que o pensamento vai voltar, na saída da aula de digitação, cheiro de pastel frito da lanchonete guiando o olhar de quase todo mundo que passa, captura também quem sai da passarela. Faltam quarenta minutos para o onze zero seis, Palmares segunda sessão via Bela Vista: av. Sanitária, rua Antônio Germano, av. das Acácias, rua Bela Petruschi, rua Ipê, rua, Alecrim, rua Ângico, rua Bela Petruschi, o pefume do pastel de carne, rua Ladainha, rua Mal. Hermes, rua São Januário, rua Cel Durval de Barros, rua das Petúnias, rua dos Cravos, rua Manjericão, rua Tiradentes, a garota menor de idade comprando um maço de Hollywood azul, rua Mons. João Rodrigues Guimarães, av. Babita Camargos, av. Cardeal Eugênio Pacelli, av. Gal. David Sarnoff, av. Babita Camargos, o rapaz do caixa pedindo pra senhora facilitar o troco, Estação de metrô Eldorado, ele vai para o ponto, av. Babita Camargos, av. Gal David Sarnoff, av. João César de Oliveira. Ele e o cheiro do pastel entram no ônibus. Vinte e quatro centavos, pagou com duas moedas de dez e quatro de um. Pensou se um dia só usaria a caneta de caligrafia para coçar as costas. Espera — ele já tinha pensado isso sobre as baquetas da bateria que seu pai deu de presente de aniversário.


A primeira vez que esse pensamento apareceu — não esse da caneta e das baquetas, o outro que eu te contava no início, já te conto — foi quando ele estava na escola, quarta série, a primeira vez que levou bomba. O colega da carteira ao lado zoando a mochila Bob Auau dele, depois a borracha de cachorrinho que veio de brinde da mochila. O nome dele era Peterson. Um garoto de cara de velho, com tatuagens no braço esquerdo feitas de caneta bic preta. Apesar das provocações e de Peterson ser figura conhecida no bairro, nunca teve briga séria, cava só nisso mesmo, no máximo cada um de um lado do pátio na hora do recreio. A moda era mochila Company, logo nada barata, surgiam então as genéricas para quem não podia gastar tanto num artigo tão simples. Um ano antes ainda tinha gente levando o material escolar em sacola plástica de supermercado, o próprio Peterson inclusive. Antes da Bob Auau o nosso amigo usava uma mochila jeans feita pela tia Marli com restos de calça do tio Henrique. Ah sim, o tal pensamento. Ele pensava o porque das pessoas fazerem esse tipo de coisa, diminuir o outro por não ter uma mochila da moda, no caso da calçada insuportável com gente correndo para o ônibus, ele pensava porque aquelas pessoas se submetiam a acordar e sair correndo. Porque as pessoas fazem as coisas que as pessoas fazem? Quase uma década tinha se passado desde que Peterson concluía que a Bob Auau não era uma mochila que fizesse do nosso amigo alguém de respeito e a mesma sensação veio enquanto olhada o rapaz do banco ao lado escrevendo com pincel atômico na lateral interna do ônibus: SAS. Esperou não esquecer de onde descer olhando a caligrafia. Porque escrever aquilo? E daquele jeito? Curvado pra frente, se passando por quem procura um livro na mochila, o pulso em movimentos rápidos. Ele pensou no quanto errado aquilo era. Tinha pensado o mesmo quando foi, pela primeira vez, com os amigos subir as escadarias da rua Guaicurus em Belo Horizonte. SASH. Nada fazia sentido, o arrancar do ônibus, os inúmeros quebra-molas da cidade, o som do aviso de próxima parada, o homem gordo preso na roleta, o outro homem de pé sarrando o pau na mulher grávida, o garoto entrando pela porta detrás e dizendo que podia estar roubando e matando. SASHE. Embora fosse só metade adulto e contaminado demais pelo cinema europeu, o nosso amigo estava mais para uma diplomacia do olhar, dessa vez como cinéfilo amador via ali uma grande chave para o cinema nacional: Dama do lotação, Ônibus 174, Cidade de deus. É bagunçado por dentro por todas as pequenas aflições que explodem no olhar, arde em confusão e raiva: porque as pessoas fazem o que fazem? O brilho nos olhos do homem gordo que passou da roleta e agora podia sentar e olhar do ponto de vista de todos a vergonha de uma roleta estreita, feita pra gente estreita, essa coisa toda. Escárnio que orbita as pupilas, tudo é urgente. O outro cara que carrega nas costas uma mochila tão grande, como se estivesse saindo para uma viagem. O motorista que não atende o sinal de próxima parada, desfaz a curva sem sequer encostar no volante, delicadeza de espinho de roseira, a mola que faça seu serviço. Compra uma bala pra me ajudar moço. Ô motô, eu dei sinal. Como enfrentar a situação? Esperar que a indignação da mulher despertasse dentro dele forças novas e desconhecidas. En ar a mão na cara do homem de pau duro se esfregando na grávida? E se fosse um casal realizando um fetiche? E se ela estivesse gostando? Não se pode confiar em esperanças frágeis como essa. Tudo é frágil. Entrar num ônibus por ser uma missão suicida, sentar no último banco é estar um pouquinho perto da morte. Vai que um outro ônibus bate na traseira, sua coluna vira airbag. Parou o olho numa casa de pedra, dessas projetadas por eletricistas. Uma trepadeira sem ores agarrada parede a dentro, esparramada aos pés de um Passat azul escuro com o adesivo da marca Wrangler. Um longo silêncio no ônibus. Devia ter esperado o próximo ônibus. O que aconteceria se tivesse entrado no próximo? Levantou, empurrou o homem que sarrava o pau na mulher grávida, carregou para o fundo ônibus. Sentiu o cheiro do xampu e do sabonete da mulher. Desculpa moço não te vi. Filho da puta, presta atenção. Tomou coragem para que esse pensamento, era esse o pensamento que estava tentando dizer mais cedo, fosse verdadeiro. Sentia mesmo os odores de sabonete e xampu. A mulher grávida antecipou. Dá pra arredar um pouco? Pode passar dona. E ela abriu a bolsa, apavorada, viu o rosto do nosso amigo que cruzou os lábios, não é vergonha nenhuma estar grávida e ter na bolsa alguns alfinetes para espetar o pau alheio se isso melhora o seu dia. Porque as pessoas fazem essas coisas? SASHE GBV. Pela primeira vez, em muitos anos, teve a resposta. Acompanhando o olhar e o corpo da mulher. Era uma abençoada trégua na rotina do pensamento. Não se preocupe com ela — disse a ponta do alfinete. Seria o primeiro lho aos quarenta anos. Fortes emoções no início da gestação, sífilis, vítima do marido escroto, acidente de carro. Agora ali no ônibus este outro idiota. Entrar num ônibus é um grande risco à integridade física, quase todos os motoristas desenvolvem limitações físicas e mentais. O passageiro atrás dela simulou procurar dinheiro no bolso para não ter que tomar partido da situação, todos estavam vendo o pau do homem no ombro da mulher. Uma vida sacrificada por míseros centavos inventados no bolso. A justiça dos homens tem uma impotência especial para punir quem merece. Mas a justiça divina é infalível: cada um segundo suas obras. Todo mal que praticamos é uma semente espontânea de farpas que tem o sofrimento de colheita certa, na proporção exata de maldades causadas, mesmo em arrependimento. Colocou a bolsa no ombro esquerdo, puxou a cordinha para a próxima parada e socou a mão direita no pau do homem. Uma veterana de pontaria experiente, talvez com um pouco de medo, mas com força bastante para fazer o homem tomar seu lugar e sentado no banco gritar sacudindo a cabeça, como uma grande estrela de comercial de xampu. Pela quantidade de sangue invadindo o zíper, deve ter pegado uma veia, quando o pau está duro há bastante sangue. Um momento antes de saltar, ergueu a bolsa acima da cabeça, deixou estender-se no ar, pegou de novo e só então saiu. Macedo, bora pra delegacia pro tarado aqui conhecer o Azeitona. Vamo entregar o povo até no final e segura ele aí até o décimo oitavo, ele conversa com o Da Costa lá: rua Haia, av. Londres, rua Rio Comprido, rua Caiapó, a mulher grávida desceu com uma outra mulher amparando, rua Corcovado, rua Pe. José Maria de Man, nosso amigo desceu.


Um palmo de lixo, folhas secas, copos descartáveis acumulados na guia da rua. Uma trava de moto trancada no poste aguardava sua utilidade, até lá as formigas faziam de ponte. Ficou enjoado com o ato do homem, farto da vantagem que os homens tiram de tudo, vagam pelo mundo estrangulando tudo e se dizem bonitos, perigosos, românticos. Aquele porco e sua sombra deserta de fidelidade. Confluência de acontecimentos que não escaparam e devem ser guardados até hoje. Entrou no bar do Zé e pediu uma coca e um cigarro picado. O rádio logo ia dar a notícia do enterro do homem que sarrava o pau, agora alfinetado. Era como se ele estivesse num vazio de lembrança e impotência. Devia ter feito alguma coisa antes, esperou a própria vítima agir, a mulher não aguentava mais ser esfregada por um estranho em público. Detestava aquela sensação de arrependimento, mesmo com o

desfecho que favorecia alguma justiça. Curioso estado sem surpresa, da outra vez foi assim também. Quando você vai ter coragem? Porque as pessoas fazem as coisas que fazem? É este o lugar que o diabo espera suas botas e seus detalhes. Zé pediu pra ele olhar o bar enquanto ia ao banheiro. Ele estava envolvido num silêncio parecido ao que conhecem os mergulhadores, acendeu o Hollywood azul. Eu não sabia que tinha trocado a mesa de sinuca Zé. O Malagueta arrumou briga aqui ontem e rasgou o pano. E já trocaram? Pois é, veio um cara hoje de manhã e trocou, ficou bom né? Silêncio de mergulhador. Ficou passando a mão no pano da sinuca, fazendo que sim com a cabeça, soprando fumaça pra lâmpada fluorescente. Se você visse um cara fazendo uma coisa muito errada dentro do ônibus, que cê fazia Zé? Muito errada como? Esfregando o pau numa moça grávida. Tá vendo isso aqui? Hum. Isso aqui já esteve dentro de muita gente e é pra isso que eu carrego. Esse bar era do meu pai, ninguém jamais atacou uma mulher aqui dentro e saiu vivo. É pra isso que isso anda comigo. Entendi, mas já tentou fora do bar? Já. O estômago parece um avião descendo. Ele imaginava o quanto Zé poderia ser violento, precisou bater as costas da mão na mesa de sinuca pra espantar o rosto e a mão segurando o cordão no pescoço do Zé. É foda. É, é foda mesmo.

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