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  • Barulhista

O mais distante das palavras



É sempre tentador recostar-se na poltrona e unir as pontinhas dos dedos e inventar justificativas teóricas que soem sólidas para o que a gente faz, mas no meu caso quase tudo isso ia ser bobagem. Desde 2016 não parava pra compor um álbum, fiz muita música para cinema e teatro e muitas obras soltas (as pessoas gostam de chamar de singles) com parceiros criando vídeos para elas. No fim é tudo trilha mesmo, um modo de sonorizar ou harmonizar o cotidiano. Eu sou viciado em compor e preciso fazer alguma coisa com isso além de ganhar dinheiro, criar algumas reticências sonoras para descansar da tarefa de música cenas. Dia desses conversando com uma amiga disse que esse álbum é triste, ela concordou em partes. Talvez seja o momento em que estamos todos, essa angústia de viver num pedaço de terra amontoado de gente sem saber direito para onde vamos e olhando pela janela do metrô e vendo o SUV que custa alguns milhares de reais estacionado ao lado de uma criança com um cartaz "tenho fome". Mas não posso fixar um significado para o álbum, ele existe agora e resta a gente ouvir com certa atenção.



Eu anotei num papel qualquer, criar um disco com 21 músicas, cada uma com 7 minutos e cujo o título tenha 7 letras, isso não é um ato genial é só um devaneio de quem lida com minutagem e títulos o dia todo, tanto que tenho várias dessas anotações sobre possíveis albums feitos com sons produzidos pelos vizinhos ou utilizar as luzes das janelas do prédio em frente de casa como partitura para 30 músicas, uma pra cada dia do mês. Daí comecei a compor pensando nessa matemática simples das 21 músicas, no meio do caminho as leituras de Bell Hooks e Djamila Ribeiro foram direcionando minha condição de pessoa não-branca para uma potência que esse construto puramente teórico acabou gerando resultados práticos incríveis. Há também algumas experiências do tipo, ir à farmácia comprar remédio e por estar usando um boné de aba reta ter que ser recebido como se fosse matar todos ali dentro. Aí é explicar que só fui comprar remédios, voltar pra casa e fazer uma melodia.




Além disso, comecei o processo de composição de trilha sonora do espetáculo "Antes do tempo existir" cuja a temática é a oralidade e vivência indígena, conviver com essa ancestralidade, também não-branca, aconteceu na mixagem do disco e muita coisa mudou nesse encontro. É engraçado, dá pra você justificar tudo com qualquer baboseira experimental acadêmica, mas olhar no olho do outro e entender que aquele momento é único não é justificativa, é o melhor efeito colateral de estar vivo.




Minha parceira querida, Michelle Barreto que visita diariamente meu estúdio e é uma atriz impressionante, além de estudante de trompete, fez um dos arranjos, a música Empatia - que inclusive ganhou esse nome quando ao mostrar o primeiro arranjo que tinha feito e ela mostrou alguns pontos que realmente estavam péssimos, eu me irritei muito dizendo que ela não tinha entendido do que se tratava. Claro que quando experimentamos a maneira dela, tudo se transformou numa música linda. O trumpete que ela criou em Miséria foi sampleado e fragmentado por mim, ali mais pro fim da música, eu simplesmente tenho formigas nos dedos e não consigo deixar que nada soe como é de fato. A faixa Pestana é um trecho do trabalho que fiz com a Grace Passô para a obra dela na Bienal de São Paulo, foi importante deixar esse fragmento soando no parque Ibiraquera numa rádio de poste pensada por ela e depois entender que essa criação poderia fazer parte desse álbum. Grace é uma grande artista e me faz muito bem ser amigo dela, gosto de andar com gente mais inteligente que eu.



A voz do Sérgio Pererê veio de uma mensagem do WhatsApp em que eu mostrava a música pra ele, nesse desencontro de arquivos, shows e agenda apertada ele não conseguiu me enviar alguns sons que entrariam no disco e eu usei a voz dele como participação, tem coisa melhor que o acaso para as aplicações de um disco? As rimas do Matéria Prima foram encomendas, o samba já existia há uns 3 meses e eu ficava com isso na cabeça, devia ter uma coisa que dividisse essa música por zero, mas esse tipo de motivação quase nunca gera resultado, por isso lancei mão de mais uma amizade e mais uma pessoa mais inteligente que eu. Matéria Prima é o rimador mais cirúrgico que conheço, além de ter um olhar muito próximo do meu, o que nos leva a conversas muito íntimas e importantes. Fui gravar um piano elétrico no estúdio Trampolim no Bexiga, onde fiz grandes amigos e um deles o LoFábio que é dono de um dos sensos de humor mais vigorosos que já vi, também mais uma dessas pessoas que beiram a metaficção de tão inteligentes. Durante a gravação ele notou que faltava um pandeiro no samba, eu disse que não tinha gravado porque não tinha pandeiro, ele prontamente disse que tinha um pandeiro e poderia fazer uma gravação em fita, acho que ele falou algo do tipo pandeiro mofado ou pandeiro podre. Como não se apaixonar por um cara desse?



A arte em fotocópia foi feita por mim imprimindo em preto e branco e fazendo fotos dessas impressões, são obras de fotógrafos brancos que registraram um momento muito próximo de todos que essa pedaço de terra já teve, pensei que era uma maneira de domesticar a rebeldia colocando isso tudo em preto e branco no álbum. Por fim inseri a imagem de uma forca na criança branca, no photoshop. Não sei se posso falar mais sobre esse álbum, hoje a gente mata as coisas de tanto amor, não quero parecer muito apaixonado ou triste. Dá um trabalhão escutar esse disco, por isso eu agradeço a quem escutar.



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