• Barulhista

Eu sei que o mundo não anda muito bom das pernas. Há uns anos atrás, parecia que o ritmo das mudanças era moderado, eu conversava no orelhão com amigos e certa vez liguei para minha família dizendo que estava na praia e minha mãe disse conseguir ouvir as ondas. Tudo agora parece ameaçado e somos todos tartarugas fugindo de canudos no oceano e as decisões dos presidentes são tomadas via twitter. Sou um homem do meu tempo, só não sei mais que tempo é esse. Tudo parece absurdo e ainda assim sorrimos pela janela. Ainda acreditamos que o normal vai voltar e a gentileza o trará como uma divindade.

Neste momento era pra eu falar alguma conclusão sobre o parágrafo de cima, mas eu resolvi postar sobre os novos lançamento que fiz parte nesses últimos dias, são notícias boas, não sei porque comecei esse escrito desse jeito. E como eu deveria começar? Como a gente vai sorrir sabendo que nossa ignorância política nos trouxe até aqui. Governados por um lunático inútil. Mas vamos lá: olha pro céu, respira e não pira.


Roger Deff, uma das pessoas mais importantes do rap brasileiro me convidou para fazer uma música com ele com o tema: reflexões do isolamento.Trocamos alguns arquivos por e-mail, ele gravou a voz na casa dele em Belo Horizonte com o celular, fiz a mix em casa em São Paulo e depois de alguns dias a música estava pronta. Agora ela tem um clipe e está ecoando pelos ouvidos em outras casas. Clipe dirigido por Marcos Cruz e filmado em muitas partes pelas pessoas em suas casas.




Depois, outro dia, inventei de gravar minha voz lendo Guimarães Rosa e mandar pra umas pessoas pelo whatsapp. Coisa atoa, mas sincera - teve quem ficou feliz e teve quem não disse nada - olhando de longe parece que eu mandei um audio pra pessoa errada, porque eu não avisei e nem disse nada. Para além das 3 mil palavras que tenho escrever no romance todo dia, inventei mas essa. Coisa de palavra como faz o Matéria. Inclusive ele soltou no canal do youtube dele os videos da turnê que fiz parte da banda. Um orgulho. Matéria Prima faz umas coisas com as palavras que eu nem sei o nome.



Em agosto do ano passado, 2019 pra quem estiver lendo em 2062, minha amiga poeta Jeanne Callegari e eu saímos pela avenida Paulista falando poemas que encontrávamos pelas livrarias dali. Pensar na impossibilidade de se fazer isso neste momento, quarentena, distanciamento social é algo bruto. Enquanto a gente andava com livros e gravador nas mãos eu lembrava daquele pixo ¨ninguém liga pras suas poesias idiota¨ e também naquele que está num muro do bairro santa tereza em Belo Horizonte ¨isso é para Roland Barthes¨. Entrar no banco do brasil, atravessar a avenida, cruzar a farmácia, subir a escada rolante, pisar torto da calçada - é também sobre esses momentos que de simples são impossíveis agora. Há quem sinta saudade da fila do banco. O resultado foi essa radio-arte que chamamos de Rádio Fortuita, ficou sendo o primeiro episódio. Dá pra ouvir aí aqui embaixo.


Ontem eu assistia a live da Anita com a Gabriela Priolli, incrível o quanto eu não sabia nada de política. Ninguém aquenta mais ver lives, mas essa é mesmo importante ser vista. Algumas pessoas tem viso a minha live, a Live da Louça, que faço diariamente enquanto lavo a louça. E um fenômeno tem acontecido. O que mais me escrevem durante a live é: bate nos pratos, faz um som com as panelas. E aí eu entendo o que está acontecendo com todas essas manifestações de artistas no meio virtual. A pessoa entra no instagram como se tivesse comprado um ingresso, logo ela exige um espetáculo. ¨Ei, você é músico! Faça sua música pra mim!¨ E é justamente por isso que lavo louça na live. Meu cérebro encontra um raciocínio diferente enquanto lavo, quase uma micro visão do que faz sentido pra mim, é ótimo dividir esse momento com outras pessoas. Ainda mais nesse momento de distanciamento social, apesar de que tem uns distanciamentos sociais que eu tô mantendo mesmo via internet.




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  • Barulhista



Entramos no momento em que as relações, enquanto ameaçadas, se refazem e parecem ar rarefeito impedindo a paisagem. Parece um inverno social. De longe se formou algo diferente diante dos meus olhos, talvez fosse uma pessoa segurando um livro. Quando a gente se aproxima vê que é só uma turma muito junta. É assim mesmo. O que era de fato? Uma micro comunidade. Essa comunidade me convidou para entrar, disseram gostar da igreja sem deus - embora seja diversa demais para deidades - há tempos conhecida como cinema. Entrei por gosto e pensei ser provisório, não tenho muita resistência para grupos de whatsapp e interações virtuais com grande número de pessoas. Me chamam ermitão. Imaginei sair logo no dia seguinte, mas gostei da ideia e do filme que iríamos assistir: Dolls dirigido por Takeshi Kitano. Depois de alguns anos como alguns filmes melhoram né? Não que fosse ruim antes. ¨Depois de muitas sessões da tarde na tela da Globo, descobri com um grupo de amigos, ainda na adolescência, que haviam filmes muito diferentes do que estávamos acostumados, é por isso que aceitei o convite do grupo.¨ Ideias boas tem filhotes e eu já imagino um grupo de whatsapp em que as pessoas combinam de ouvir um disco de música brasileira por semana. E a cada fim da audição conversem sobre o que ouviram. Começo a suspeitar que a aglomeração virtual tem lá suas vantagens. Desde 2009 sou um frequentador assíduo desse ambiente, mas comunico pouco, meu bate-papo é musical. De repente, vejo o filme. Ele tem cores, sensações e mil símbolos, e está numa qualidade incrível. Graças ao Stremio, descoberta que fiz no grupo também. Pra quem como eu já se assustava com a facilidade do youtube, esse outro é um assombro só. Ficamos a olhar nossos ambientes e rostos, falamos pausadamente para que entendam que ainda não foi passada a vez ao outro. Mesmo o silêncio entre as palavras é escutado com calma. Sem rompantes ou ansiedades comuns de mesa de bar. A maioria bebe álcool e isso acrescenta alguma intimidade à conversa. Os pensamentos me dão arrepios. Próximos o suficiente para saber o que cada um pensou do filme, sim há uma conversa após o filmes. Por vezes alguns buscam explicações para o que viram, como se não bastasse a mágica e a carga imagética das cores. Mas entendo que a gente precisa resolver alguns porquês. Fora a procura por um realismo tão bombardeado pelo discurso geral das mídias que nos pegam no colo. Certa vez um amigo disse que o cinema evoluiria a ponto de que no futuro entraríamos nas salas para ver um festival de vhs com festas de debutantes de 1995. Tarda muito não. Visto que o experimentalismo avança sobre os escombros dos próprios conceitos. Porque estamos todos olhando para esta tela? Não conseguimos sair daqui. Não é possível esperar ajuda, não virá. Finalmente o filme acaba. Ainda não tenho certeza de que todos terminaram de ver, talvez terminaram antes de mim. Essa coisa de compartilhar pontos de vistas sobre um mesmo alvo é um exercício delicioso. Obra aberta do Umberto Eco, sabe? Nos abraçamos, nos beijamos. As mulheres grisalhas sorriem, comemorando junto à distância. Um dos jovens que acendeu a fogueira corre na nossa direção e a gente diz “Ela conseguiu!”. Ele fica exultante e sai correndo para contar pros outros. Sobre a falésia, de novo muito pequeno, está o cara do cachorro. Contamos para ele também, aos gritos. Tudo porque a gente olhou nos olhos da foca, penso de novo. Essa é toda a diferença. Fazer novos amigos, sem abraços e sem beijos. Comemorando a distância o fato de estarmos juntos. Penso de novo na diferença entre amizade e proximidade. Como na Espanha que durante a pandemia foi permitido passear com os cães e muitos alugavam seus pets para que outros pudessem sair um pouco. Contamos também um com o outro para não sair por aí gritando. * Um domingo que termina com cinema e diálogo, é um domingo em que a inexpressividade de qualquer coisa foi contemplada. Eu me sinto um músculo, sempre me senti. O que quer dizer que sou mais pernas e menos vísceras. Será? Pareço tão quieto tomando meu chá de hortelã. Em qual sentido você diz isso? Talvez por ser tão pouco racional. Me apaixono por tudo e tenho uma pasta com minha coleção de obsessões, padrões estéticos e dramaturgias sonoras. Resumindo, o músculo não sabe porque contrai, mas é assim que acontece. Onde eu estava antes - Contagem -, parece que o músculo não tinha espaço. Isso é um pouco triste, porque ao mesmo tempo fui muito feliz ali. Tive que inventar um lugar, afastar as paredes, levantar o teto e abrir para visitantes. Meu próprio museu de mim, aberto, com uma cobrança de uma taxa de manutenção claro. É sobre isso, escrita automática e confinada. Processo confuso, ontem trabalhei em duas músicas de cantores. À primeira vista é um trabalho comum, mas retocar - digo tocar - o trabalho artístico de outra pessoa é como - não encontro exemplos que funcionam aqui, vou falar mais. Há tempos eu tinha uma pesquisa sobre timbres apreendidos com os meus professores do O Grivo. Essa pesquisa resultou em várias trilhas sonoras para teatro que moldaram muito do que acredito ser música. Quando preciso rever o trabalho de outro artista, sinto que estou num ambiente em que essa pesquisa já não funciona, afinal um outro universo sonoro se apresentou. (tô viajando?) - espero que sim. Desde o ensaio para gravar numa base de rap até a escrita para estruturar um remix de uma música, tudo agora é sobre confinamento e estetização da natureza. Sigo solto, mas com uma coleira que me indica de onde vim. E me envolvo a ponto de ter anotações sobre aquelas músicas dos cantores, como se minhas fossem. (gostei de escrever isso) Tanto faz se a gente está junto pra fazer música, conversar sobre cinema ou rir de algum meme. Esse caos-obra que se tornou a quarentena em que todo mundo virou imigrante de algum lugar da cidade (despatriados dos bares) unidos por uma corda vermelha chamada internet não vai acabar porque a gente vai se lembrar, assim como eu me lembro de Contagem e de Belo Horizonte. Dolls é uma alegoria do teatro de bonecos, o que somos nós olhando para essa tela? Adorei o filme, aliás. * O amor segue ao meu lado, dormindo comigo, brigando, fazendo almoço, reclamando de tudo que precisa ser revisto. Reparação doméstica. (arrisco) O desânimo não pode vencer o amor. O desânimo não entende nada sobre beijos de madrugada e conversas sussurradas no pé do ouvido. Não sabe que é preciso deitar para rolar. Em breve tem outro filme no grupo, tem duas músicas de amigos pra sair, tem mais duas pra terminar sobre confinamento e o livro que estou lendo: Sobre os ossos dos mortos, de Olga Tokarczuk. Não prometi atualizar o blog, mas atualizei. Seguimos juntos! Se cuidem!

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  • Barulhista


Enquanto escrevo ouço o som que vem da aba ao lado, o som de um campeonato de Disc Golf que é um golf que se joga com um disco de frisbee. Costumo escrever ouvindo campeonatos desse tipo por conta da insistência do som de concentração, erro e acerto. Podia ir até ali fora depois das zero hora, olhar o céu de São Paulo com menos poluição. Faz muito tempo que estou sem vizinhos, ambos os lados, só ficou o da frente que tem um poodle que participa de todo o movimento da rua. Ele diz: fiquem em casa! Sempre há um motivo para um cachorro latir. Hoje saiu o Grushenka no spotify, disco que gravei em Belo Horizonte em 2014, dois meses depois de ler o romance do Dostoiévski de 1879. Lembro de terminar a leitura e ligar para um amigo como se algo estivesse pegando fogo perto de mim. Ele diz: faz um disco! Aqui, como durante os outros discos, há muitas cenas e passeios que soam para além deste ponto de partida, no caso Os Irmãos Karamazov. Começa com um anúncio de seu próprio nome, Grushenka é a primeira faixa que compus para esse disco. Tinha descoberto o timbre da bateria numa pasta que encontrei num blog de baterias eletrônicas dos anos 90. Quando a gente escuta não parece, mas a primeira coisa que toquei nessa música foi o ritmo. É nele que a força da personagem se amplia. Além disso é uma música cíclica, o fim é o mesmo loop do início, criando assim essa atmosfera infinita desse caminho. Na próxima faixa, você acompanha os trajetos de quando eu pilotava uma motocicleta e um tipo mapa se constrói. Cada timbre tem um tempo. O número de timbres e a duração das transições. Duas pessoas numa moto que andando devagarinho num dia útil. Realmente fiz essa música depois de passear com as duas mãos na cintura, nunca mais vi essas mãos. As estruturas queimadas. O carinho, quando há carinho. Mas entenda, eu não fiz essa música para que ela fosse uma música de amor. Ela é sobre a despreocupação. Pequeno conto de insônia é velocidade. Não tenho muito mais a falar sobre essa música. Ela tem um revestimento grosso que é disfarçado pela fantasia inicial desses sinos sintéticos. Também não quero aqui ficar lendo as minhas músicas como uma cadela lambendo as crias. Mesmo porque esses filhotinhos já tem seis anos. 417 é talvez o símbolo mais abrangente e impressionante da distância. Se trata de 417 quilômetros de distância. O tédio e a hostilidade de estar longe. Lembro de uma amiga comentar, após ouvir, que eu havia feito uma música que demorava muito pra engatar. Graças aos timbres agudos que transportam a infância e o abraço aqui pra perto. Querência é pra dar um quentinho. Foi feita pra isso, funciona comigo. Cortecostura não estava no disco, foi composta na mesma época para um desenho que vi, fiquei tão louco pelo desenho que pedi a artista e ganhei de presente. Uma música feita para um desenho. Feita também para uma ideia de cores, linhas e agulhas. Depois de dormir, a frase inteira é: depois de dormir te vejo. É sobre, como o próprio nome diz, sonhar. Foi feita para uma conversa que tive com uma amiga sobre a falta que faz as pessoas que morrem. E sobre a possibilidade de sonhar com elas e receber mensagens, abraços. Não tem explicação, mas gosto de ouvir esse disco de olhos fechados. Seja como for, este é um disco sobre o feminino. Grushenka é o feminino que me modificou no livro e na vida. O assombro que essa experiência me trouxe e que ainda faz tanto sentido quando escuto. Fico mesmo feliz que agora mais pessoas poderão ouvir e espalhar esse som feminino. E sobre o campeonato de Disc Golf, quem ganhou foi Ricky Wysocki. Parece que entendo né? Parece que estou compartilhando algo com muita segurança, mas não pense nisso. Tive que pesquisar aqui pra escrever esse nome e tentei escrever sem ouvir o disco - apenas o som de concentração, acerto e erro. Então, foi por isso que levei tanto tempo para escrever esse texto.


Ouvir Grushenka no Spotify.

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