É sempre tentador recostar-se na poltrona e unir as pontinhas dos dedos e inventar justificativas teóricas que soem sólidas para o que a gente faz, mas no meu caso quase tudo isso ia ser bobagem. Desde 2016 não parava pra compor um álbum, fiz muita música para cinema e teatro e muitas obras soltas (as pessoas gostam de chamar de singles) com parceiros criando vídeos para elas. No fim é tudo trilha mesmo, um modo de sonorizar ou harmonizar o cotidiano. Eu sou viciado em compor e preciso fazer alguma coisa com isso além de ganhar dinheiro, criar algumas reticências sonoras para descansar da tarefa de música cenas. Dia desses conversando com uma amiga disse que esse álbum é triste, ela concordou em partes. Talvez seja o momento em que estamos todos, essa angústia de viver num pedaço de terra amontoado de gente sem saber direito para onde vamos e olhando pela janela do metrô e vendo o SUV que custa alguns milhares de reais estacionado ao lado de uma criança com um cartaz "tenho fome". Mas não posso fixar um significado para o álbum, ele existe agora e resta a gente ouvir com certa atenção.



Eu anotei num papel qualquer, criar um disco com 21 músicas, cada uma com 7 minutos e cujo o título tenha 7 letras, isso não é um ato genial é só um devaneio de quem lida com minutagem e títulos o dia todo, tanto que tenho várias dessas anotações sobre possíveis albums feitos com sons produzidos pelos vizinhos ou utilizar as luzes das janelas do prédio em frente de casa como partitura para 30 músicas, uma pra cada dia do mês. Daí comecei a compor pensando nessa matemática simples das 21 músicas, no meio do caminho as leituras de Bell Hooks e Djamila Ribeiro foram direcionando minha condição de pessoa não-branca para uma potência que esse construto puramente teórico acabou gerando resultados práticos incríveis. Há também algumas experiências do tipo, ir à farmácia comprar remédio e por estar usando um boné de aba reta ter que ser recebido como se fosse matar todos ali dentro. Aí é explicar que só fui comprar remédios, voltar pra casa e fazer uma melodia.




Além disso, comecei o processo de composição de trilha sonora do espetáculo "Antes do tempo existir" cuja a temática é a oralidade e vivência indígena, conviver com essa ancestralidade, também não-branca, aconteceu na mixagem do disco e muita coisa mudou nesse encontro. É engraçado, dá pra você justificar tudo com qualquer baboseira experimental acadêmica, mas olhar no olho do outro e entender que aquele momento é único não é justificativa, é o melhor efeito colateral de estar vivo.




Minha parceira querida, Michelle Barreto que visita diariamente meu estúdio e é uma atriz impressionante, além de estudante de trompete, fez um dos arranjos, a música Empatia - que inclusive ganhou esse nome quando ao mostrar o primeiro arranjo que tinha feito e ela mostrou alguns pontos que realmente estavam péssimos, eu me irritei muito dizendo que ela não tinha entendido do que se tratava. Claro que quando experimentamos a maneira dela, tudo se transformou numa música linda. O trumpete que ela criou em Miséria foi sampleado e fragmentado por mim, ali mais pro fim da música, eu simplesmente tenho formigas nos dedos e não consigo deixar que nada soe como é de fato. A faixa Pestana é um trecho do trabalho que fiz com a Grace Passô para a obra dela na Bienal de São Paulo, foi importante deixar esse fragmento soando no parque Ibiraquera numa rádio de poste pensada por ela e depois entender que essa criação poderia fazer parte desse álbum. Grace é uma grande artista e me faz muito bem ser amigo dela, gosto de andar com gente mais inteligente que eu.



A voz do Sérgio Pererê veio de uma mensagem do WhatsApp em que eu mostrava a música pra ele, nesse desencontro de arquivos, shows e agenda apertada ele não conseguiu me enviar alguns sons que entrariam no disco e eu usei a voz dele como participação, tem coisa melhor que o acaso para as aplicações de um disco? As rimas do Matéria Prima foram encomendas, o samba já existia há uns 3 meses e eu ficava com isso na cabeça, devia ter uma coisa que dividisse essa música por zero, mas esse tipo de motivação quase nunca gera resultado, por isso lancei mão de mais uma amizade e mais uma pessoa mais inteligente que eu. Matéria Prima é o rimador mais cirúrgico que conheço, além de ter um olhar muito próximo do meu, o que nos leva a conversas muito íntimas e importantes. Fui gravar um piano elétrico no estúdio Trampolim no Bexiga, onde fiz grandes amigos e um deles o LoFábio que é dono de um dos sensos de humor mais vigorosos que já vi, também mais uma dessas pessoas que beiram a metaficção de tão inteligentes. Durante a gravação ele notou que faltava um pandeiro no samba, eu disse que não tinha gravado porque não tinha pandeiro, ele prontamente disse que tinha um pandeiro e poderia fazer uma gravação em fita, acho que ele falou algo do tipo pandeiro mofado ou pandeiro podre. Como não se apaixonar por um cara desse?



A arte em fotocópia foi feita por mim imprimindo em preto e branco e fazendo fotos dessas impressões, são obras de fotógrafos brancos que registraram um momento muito próximo de todos que essa pedaço de terra já teve, pensei que era uma maneira de domesticar a rebeldia colocando isso tudo em preto e branco no álbum. Por fim inseri a imagem de uma forca na criança branca, no photoshop. Não sei se posso falar mais sobre esse álbum, hoje a gente mata as coisas de tanto amor, não quero parecer muito apaixonado ou triste. Dá um trabalhão escutar esse disco, por isso eu agradeço a quem escutar.



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Para lá do campo de várzea e da creche do Monte Castelo está um trono, tá não é exatamente um trono e sim um quarto com uma cama de casal, mas imagina um trono aí, um príncipe sentado e em volta dele seus súditos. Cheiro de tabaco San Marino, uma tv de tubo, duas prateleiras de uma parede a outra com livros roubados da biblioteca estadual e do centro cultural de belo horizonte, um pôster feito à mão com um desenho do Jean Cocteau para o filme Sangue de um poeta, maços de Lucky Strike espalhados pela cama. O pequeno castelo de César, uma Grushenka pós adolescente, para se salvar César usa a persuasão, para sobreviver usa quem está por perto. César é um Simone Simonini em construção, estudante de publicidade e se diz cinéfilo. O portão da casa sempre destrancado, mesmo durante a madrugada, qualquer um entrava e tinha acesso ao jardim de dona Emília, avó materna de César. Shine — Collective Soul. Ele abriu o portão, deu boa noite pra dona Emília. O César tá aí? Pode ir lá, tá com a Luana. O corredor estreito levava do jardim da avó até o quintal e mais ao fundo a casa da família. O pai, Mauro, relojoeiro aposentado de forma ilícita usou o nome do irmão. A mãe, Maria, vendedora de cosméticos trazidos do Paraguai. A irmã, Catarina, professora da escola infantil Castelo da Educação e o irmão, Chico, que fazia de tudo, desde limpar quintais e lotes até cortar árvores e ajudar pedreiros em grandes reformas. A tv sempre ligada, o aparelho de som também, confusão de ruídos. Casa num caos inofensivo, já absorvido pelos moradores e visitas. O cachorro, Bad, em homenagem ao disco de Michael Jackson, sem raça definida, preso por uma corrente de bicicleta. Na sala, seu Mauro vendo o programa do Ratinho, dona Maria na cozinha fritando bolinhos de chuva num óleo sujo, tudo na cozinha era sujo, pedir um copo d ́água era correr o risco de beber junto um pouco de café ou qualquer coisa impregnada no fundo do copo. Era este o cenário até a porta do quarto de César. Qualquer um daria pelo menos uma olhada na cara de alguém que entra na sua casa, mas ali o que acontecia era no máximo uma respirada funda de seu Mauro. Alguns acordes de violão deram as boas vindas ao nosso amigo, a cena era comum: César como um guru sentado no centro da cama, só de cueca, com o violão no colo. Luana arrumando os livros e resmungando sobre a bagunça do quarto. E aí gente, beleza? Foi respondido pelo guru com um aceno de cabeça e um gesto de silêncio com o indicador nos lábios. Obedeceu e ficou encostado no marco da porta. Um guru erudito da periferia, trajando cueca falsificada da Calvin Klein, cabeça sempre acima do horizonte, cabelos loiros cortados por ele mesmo numa mistura de Kurt Cobain no acústico mtv e Brad Pitt no Clube da Luta. Até mil novecentos e noventa e quatro ele era apenas um garoto que ganhou alguns concursos de passinho, andava de skate e fazia todas as garotas suspirarem. Às vezes foi o acesso à obra de Arvo Part ou algum livro de filosofia a que a universidade indicou, mas naquele ano se dedicou ao grupo que se formaria naquele quarto.

Esse guru-vampiro vivia da atenção dos amigos, era alimentado pela paixão que despertava neles, um doido de estimação. Luana limpando os livros e atenta com a ordem alfabética por sobrenome. Ele ainda encostado na porta esperando o momento que pudesse falar. César se levantou, deu um mínimo sorriso, segurou com muita força o braço de Luana e cuspiu bastante saliva no rosto. Que isso César? Ela gosta, não gosta Luana? Ela abanou com a cabeça, limpou o rosto com a anela dos livros. Eu mandei você limpar? Ainda sorrindo. Senta aí na cama, que cê tá querendo cara? Vim saber se tirou alguma música nova. A cuspida, fato isolado. Os conselhos dele sobre como conquistar garotas eram escutados com atenção por conta de momentos assim, ultrapassava qualquer tipo de cuidado com o outro. O cara cuspiu na cara da Luana, Nilo. Ihh, já vi ele fazer coisa muito pior com ela, tô pensando em não voltar mais naquela casa. Mas ela não falou nada, será que ela gosta? Cara, uma coisa é falar sobre isso entre quatro paredes, essas coisas de jogo erótico de casal e tudo, mas na nossa frente é cabuloso. Fiquei assustadão, não queria parecer um viadinho, mas ele disse que eu não ia fazer nada porque se eu não gostasse de ver aquilo teria ido embora, e eu fiquei. É, falou a mesma coisa pra mim.

Alguns meninos do bairro achavam que César era só um tarado que usava sua beleza e sua lábia para manter por perto um clã de escravos emocionais. Nilo mesmo era um dos que pensavam assim, era muito amigo de Sérgio e do nosso amigo. Aliás, nosso amigo ainda não sabia que num futuro próximo, César iria transar com Samara, a irmã mais velha de Laís. O primeiro livro que César roubou da biblioteca estadual foi Apocalípticos e Integrados do Umberto Eco, teve comemoração com vinho e cigarros no quarto. Lia em voz alta para os amigos, Luís disse não entender e como um santo graal César entregou. Fica uma semana com ele Luís, já comi esse livro. Nilo queria ser o próximo. Com aparência distraída, tira a mochila das costas e entrega no guarda volumes, serve um pouco de água, pega alguns marcadores de papel oferecidos pela biblioteca e entra. Balança o corpo como se procurasse um título específico e encontra o livro que foi previamente pensado. O que acontece é que havia pouco ou nenhum dinheiro para comprar livros e como César tinha sua própria biblioteca, os outros garotos eram reféns do que ele roubava. Alguns queriam seus próprios livros, títulos de interesse particular, claro que nem todos tinham a habilidade e a coragem para entrar numa biblioteca para roubar um livro. Quando pensa em roubar algo é preciso alguma ética ou regra. A gente só pega um livro que tenha mais de um exemplar, pra biblioteca não ficar órfã. César não ficou muito feliz com a independência de seus súditos, mas acabou ensinando as técnicas que tinha desenvolvido para levar livros de bibliotecas públicas.

O primeiro título foi Artigos musicais do Lívio Tragtenberg. Foi usada a técnica mais primitiva, colocar o livro dentro da calça e sair com com aparência distraída e o corpo um pouco mais curvado pra frente. Lembra de sempre dizer boa tarde para o bibliotecário, se possível fazer alguma amizade. Era um bando de garotos interessados em descobrir coisas. O segundo título foi Utopia e paixão do Roberto Freire. Uma técnica um pouco mais elaborada que chamavam de lançamento. Um ficava do lado de fora da biblioteca e o outro entrava e passeava com um livro debaixo do braço e outro aberto nas mãos, o livro que seria lançado era o que estava debaixo do braço, franzia os lábios e encostava na janela, segundo andar, jogava o livro pela janela, o outro agarrava e aguardava mais um título. Era preciso contemplar o título escolhido por quem jogava e por quem agarrava. O terceiro título foi uma biografia do Jean Cocteau. Este foi roubado duas vezes em duas bibliotecas diferentes. Na primeira foi na biblioteca da puc que tinha alarme, um pequeno filamento metálico e magnetizado era preso na capa, então bastava arrancar a capa e usar alguma das técnicas de levar o livro. O segundo foi pego de um jeito que chamávamos de Pinochio. Pegar um livro emprestado (Jean Cocteau R-0456), é preciso que tenha mais de uma cópia na biblioteca, então você volta com ele e faz questão de avisar ao bibliotecário que está entrando com um livro que é da biblioteca. Tudo bem, fica à vontade. Você então sai com o mesmo livro, isso é para criar a ilusão de que você pega emprestado e lê na biblioteca. Depois volta três dias depois com outro livro e faz o mesmo processo de dizer que está com um livro emprestado, ao sair leva também o segundo exemplar que havia na biblioteca (Jean Cocteau R-0457), caso o alarme dispare o bibliotecário vai conferir e ver que o título é o mesmo que consta como emprestado e te libera, por último você volta perto da data de devolução com o primeiro livro (Jean Cocteau R-0456) e devolve. O segundo exemplar já está na sua casa.

Era este o messias dos meninos, livros roubados, conselhos amorosos, exemplos de conversas profundas e longas sobre a importância de ser e de parecer inteligente. Quase inocente, não fosse pelos abusos do guru. Depois foi a vez das fitas vhs. César alugava cinco tas na MG Vídeo toda semana. Assistia muitas vezes durante a semana, copiava a fita com seus dois videocassetes de quatro cabeças que a mãe trouxe do Paraguai e no m de semana, o quarto era um cineclube com palestra sobre cada um dos filmes. Nesta semana estavam em cartaz: A árvore, o prefeito e a mediateca de Eric Rohmer, Bande à part de Jean-Luc Godard, A teta e a lua de Bigas Luna, Deus e o diabo na terra do sol de Glauber Rocha e o Sétimo continente de Michael Haneke. Depois da longa sessão César colocou Duofel pra tocar e começou a cinegrafia a comparada. Ali no Monte Castelo em mil novecentos e noventa e quatro, cinco garotos entre quinze e dezessete anos discutiam essas obras enquanto os sucessos da Jovem Pan, o plano real e os calçados Zepelin e Impeachment carimbavam o tempo. Brincando de eruditos para impressionar o vento que a janela do quarto trazia. Chico entrava vez ou outra e dizia que eram um bando de vagabundos que só faziam feder a casa de cigarro e falavam alto demais depois da meia-noite. Cala a boca retardado, vai carregar entulho, pedreiro! Até então era proibida a entrada de mulheres, César dizia que as meninas do bairro só queriam conversa com quem tinha carro, emprego e falasse sobre coisas idiotas. Nilo tinha mais medo do que César faria com elas do que dúvidas sobre o que de fato elas queriam. Sérgio tinha dito que na próxima semana não viria para a sessão de filmes, a Val reclamava que há seis sábados eles não saíam par uma cerveja na praça Itajaí. Traz ela aqui, talvez ela que mais tranquila sabendo o que fazemos. O histórico de César não ajudava na escolha de convidar uma namorada pra lá. Um ano antes foi pego aos beijos no portão de Gislaine, namorada do nosso amigo, depois tinha enviado uma carta social para Patrícia, convidando para uma sessão só com os dois, isso fez Luís faltar a três sessões do cineclube. César sempre encontrava uma saída, maldita retórica, pedia desculpas, explicava que estava apaixonado pelo casal, que car com a namorada de alguém era uma maneira de homenagear a união dos cinco. Um dos discursos de César sobre isso foi esse:

Essas mãos fizeram tudo isso aqui, cada filme, cada livro, tudo isso é um presente pra nós...

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Não sei exatamente como você é, e isso não é um pedido para que mande uma fotografia, por favor não mande. Não é sobre te olhar, talvez se fosse possível enviar seu perfume eu aceitaria. A descrição do perfume detrás da sua orelha esquerda depois que minha língua fazer passeio. Existe uma beleza em descobrir uma pessoa pelas palavras dela que nenhuma fotografia consegue dar conta. O som da sua respiração na minha boca logo depois das mãos agarrarem sua cintura. Parecia felicidade ontem, vinte e quatro pessoas sentadas na grama sintética, uma conferência de diferenças. Talvez fosse isso mesmo que esperava de uma casa que dissessem minha. Fui olhando os corpos, as roupas, os gestos, os rostos, os timbres das vozes, o que era dito. Política e dança no mesmo espaço tensionando o erotismo de quem passa. Erotismo-acidente, desses que esconde o prazer na simplicidade. Me perguntaram: tem um carregado pra esse tipo de celular? Fiquei alegre por poder ajudar, a gente devia ter todo o tipo de carregador em casa, quando você entrega um carregador de celular pra alguém, tem sempre um sorriso de alívio no rosto de quem recebe, como se o que a gente entregasse fosse um abraço. Três horas lavando quiabo pro caruru, mais duas horas picando. Descansei nos ossos alheios e então o pensamento coletivo aconteceu, o povo do teatro tem isso de manter o coletivo no topo da pirâmide, quando terminou não havia uma louça suja, uma coisa fora do lugar, não parecia ter passado ali vinte e quatro pessoas e uma festa. Ontem à tarde o teatro veio até mim e quis ser pedra. Meu boné com o símbolo do Atari balançando na cabeça de um pernambucano, esse me ensinou que não se entrega uma faca direto para a mão do outro, se deve colocar na mesa e deixar que o outro pegue. "aqui no bairro a água acaba depois das 20h" Nem que todas aquelas bundas rebolando e se roçando fossem as mesmas carregando as cadeiras, varrendo, organizando o espaço pra fazer caber a tranquilidade no fim do dia. Impossível imaginar todas essas pessoas, vindas de vários lugares do país, babel de sotaques, conversando sobre um mesmo assunto em voz alta, duas travestis pretas e duas travestis brancas, um bebê de olhos azuis, uma mulher com rosto de xilogravura-cordel fazendo aniversário, muitos cabelos afro, alguns cabelos lisos, a comida baiana perfumando a música de axé, sete quiabos com mel, um dia crespo na memória da grama sintética. Colocar significado em pessoas não é mesmo tarefa fácil, ao contrário dos objetos, respondem de maneiras diferentes ao mesmo estímulo. Você sabe onde estão seus amigos? Sei onde está um deles. Não peça desculpas, fique feliz. Tem umas maciez no dia, mas não entenda isso como um poema, eu não entendo nada de fazer poema, colocar significado em palavras não é mesmo tarefa fácil. Preocupação melhor é manter aquecido o tempo.


O principal sinal é um pensamento que sempre volta na cabeça dele. Está andando na avenida João César de Oliveira, na altura da passarela, esquina da rua Bélgica, fumando um cigarro — não se preocupe com ela — disse a ponta do cigarro. e de olho no pessoal que passa correndo até o ponto de ônibus, são quase dezenove horas. As calçadas são insuportáveis, cismam torcer os pés, toda pisada é desagradável em Contagem, trecho de derrubar idosos. Na esquerda tem uns prédios de seis andares recortados pelos anúncios da candidatura de Altamir do PSDB, os anúncios já estão desmoronando e um pixo cobre os dentes do candidato: CURVEX. E é aqui que ele sabe que o pensamento vai voltar, na saída da aula de digitação, cheiro de pastel frito da lanchonete guiando o olhar de quase todo mundo que passa, captura também quem sai da passarela. Faltam quarenta minutos para o onze zero seis, Palmares segunda sessão via Bela Vista: av. Sanitária, rua Antônio Germano, av. das Acácias, rua Bela Petruschi, rua Ipê, rua, Alecrim, rua Ângico, rua Bela Petruschi, o pefume do pastel de carne, rua Ladainha, rua Mal. Hermes, rua São Januário, rua Cel Durval de Barros, rua das Petúnias, rua dos Cravos, rua Manjericão, rua Tiradentes, a garota menor de idade comprando um maço de Hollywood azul, rua Mons. João Rodrigues Guimarães, av. Babita Camargos, av. Cardeal Eugênio Pacelli, av. Gal. David Sarnoff, av. Babita Camargos, o rapaz do caixa pedindo pra senhora facilitar o troco, Estação de metrô Eldorado, ele vai para o ponto, av. Babita Camargos, av. Gal David Sarnoff, av. João César de Oliveira. Ele e o cheiro do pastel entram no ônibus. Vinte e quatro centavos, pagou com duas moedas de dez e quatro de um. Pensou se um dia só usaria a caneta de caligrafia para coçar as costas. Espera — ele já tinha pensado isso sobre as baquetas da bateria que seu pai deu de presente de aniversário.


A primeira vez que esse pensamento apareceu — não esse da caneta e das baquetas, o outro que eu te contava no início, já te conto — foi quando ele estava na escola, quarta série, a primeira vez que levou bomba. O colega da carteira ao lado zoando a mochila Bob Auau dele, depois a borracha de cachorrinho que veio de brinde da mochila. O nome dele era Peterson. Um garoto de cara de velho, com tatuagens no braço esquerdo feitas de caneta bic preta. Apesar das provocações e de Peterson ser figura conhecida no bairro, nunca teve briga séria, cava só nisso mesmo, no máximo cada um de um lado do pátio na hora do recreio. A moda era mochila Company, logo nada barata, surgiam então as genéricas para quem não podia gastar tanto num artigo tão simples. Um ano antes ainda tinha gente levando o material escolar em sacola plástica de supermercado, o próprio Peterson inclusive. Antes da Bob Auau o nosso amigo usava uma mochila jeans feita pela tia Marli com restos de calça do tio Henrique. Ah sim, o tal pensamento. Ele pensava o porque das pessoas fazerem esse tipo de coisa, diminuir o outro por não ter uma mochila da moda, no caso da calçada insuportável com gente correndo para o ônibus, ele pensava porque aquelas pessoas se submetiam a acordar e sair correndo. Porque as pessoas fazem as coisas que as pessoas fazem? Quase uma década tinha se passado desde que Peterson concluía que a Bob Auau não era uma mochila que fizesse do nosso amigo alguém de respeito e a mesma sensação veio enquanto olhada o rapaz do banco ao lado escrevendo com pincel atômico na lateral interna do ônibus: SAS. Esperou não esquecer de onde descer olhando a caligrafia. Porque escrever aquilo? E daquele jeito? Curvado pra frente, se passando por quem procura um livro na mochila, o pulso em movimentos rápidos. Ele pensou no quanto errado aquilo era. Tinha pensado o mesmo quando foi, pela primeira vez, com os amigos subir as escadarias da rua Guaicurus em Belo Horizonte. SASH. Nada fazia sentido, o arrancar do ônibus, os inúmeros quebra-molas da cidade, o som do aviso de próxima parada, o homem gordo preso na roleta, o outro homem de pé sarrando o pau na mulher grávida, o garoto entrando pela porta detrás e dizendo que podia estar roubando e matando. SASHE. Embora fosse só metade adulto e contaminado demais pelo cinema europeu, o nosso amigo estava mais para uma diplomacia do olhar, dessa vez como cinéfilo amador via ali uma grande chave para o cinema nacional: Dama do lotação, Ônibus 174, Cidade de deus. É bagunçado por dentro por todas as pequenas aflições que explodem no olhar, arde em confusão e raiva: porque as pessoas fazem o que fazem? O brilho nos olhos do homem gordo que passou da roleta e agora podia sentar e olhar do ponto de vista de todos a vergonha de uma roleta estreita, feita pra gente estreita, essa coisa toda. Escárnio que orbita as pupilas, tudo é urgente. O outro cara que carrega nas costas uma mochila tão grande, como se estivesse saindo para uma viagem. O motorista que não atende o sinal de próxima parada, desfaz a curva sem sequer encostar no volante, delicadeza de espinho de roseira, a mola que faça seu serviço. Compra uma bala pra me ajudar moço. Ô motô, eu dei sinal. Como enfrentar a situação? Esperar que a indignação da mulher despertasse dentro dele forças novas e desconhecidas. En ar a mão na cara do homem de pau duro se esfregando na grávida? E se fosse um casal realizando um fetiche? E se ela estivesse gostando? Não se pode confiar em esperanças frágeis como essa. Tudo é frágil. Entrar num ônibus por ser uma missão suicida, sentar no último banco é estar um pouquinho perto da morte. Vai que um outro ônibus bate na traseira, sua coluna vira airbag. Parou o olho numa casa de pedra, dessas projetadas por eletricistas. Uma trepadeira sem ores agarrada parede a dentro, esparramada aos pés de um Passat azul escuro com o adesivo da marca Wrangler. Um longo silêncio no ônibus. Devia ter esperado o próximo ônibus. O que aconteceria se tivesse entrado no próximo? Levantou, empurrou o homem que sarrava o pau na mulher grávida, carregou para o fundo ônibus. Sentiu o cheiro do xampu e do sabonete da mulher. Desculpa moço não te vi. Filho da puta, presta atenção. Tomou coragem para que esse pensamento, era esse o pensamento que estava tentando dizer mais cedo, fosse verdadeiro. Sentia mesmo os odores de sabonete e xampu. A mulher grávida antecipou. Dá pra arredar um pouco? Pode passar dona. E ela abriu a bolsa, apavorada, viu o rosto do nosso amigo que cruzou os lábios, não é vergonha nenhuma estar grávida e ter na bolsa alguns alfinetes para espetar o pau alheio se isso melhora o seu dia. Porque as pessoas fazem essas coisas? SASHE GBV. Pela primeira vez, em muitos anos, teve a resposta. Acompanhando o olhar e o corpo da mulher. Era uma abençoada trégua na rotina do pensamento. Não se preocupe com ela — disse a ponta do alfinete. Seria o primeiro lho aos quarenta anos. Fortes emoções no início da gestação, sífilis, vítima do marido escroto, acidente de carro. Agora ali no ônibus este outro idiota. Entrar num ônibus é um grande risco à integridade física, quase todos os motoristas desenvolvem limitações físicas e mentais. O passageiro atrás dela simulou procurar dinheiro no bolso para não ter que tomar partido da situação, todos estavam vendo o pau do homem no ombro da mulher. Uma vida sacrificada por míseros centavos inventados no bolso. A justiça dos homens tem uma impotência especial para punir quem merece. Mas a justiça divina é infalível: cada um segundo suas obras. Todo mal que praticamos é uma semente espontânea de farpas que tem o sofrimento de colheita certa, na proporção exata de maldades causadas, mesmo em arrependimento. Colocou a bolsa no ombro esquerdo, puxou a cordinha para a próxima parada e socou a mão direita no pau do homem. Uma veterana de pontaria experiente, talvez com um pouco de medo, mas com força bastante para fazer o homem tomar seu lugar e sentado no banco gritar sacudindo a cabeça, como uma grande estrela de comercial de xampu. Pela quantidade de sangue invadindo o zíper, deve ter pegado uma veia, quando o pau está duro há bastante sangue. Um momento antes de saltar, ergueu a bolsa acima da cabeça, deixou estender-se no ar, pegou de novo e só então saiu. Macedo, bora pra delegacia pro tarado aqui conhecer o Azeitona. Vamo entregar o povo até no final e segura ele aí até o décimo oitavo, ele conversa com o Da Costa lá: rua Haia, av. Londres, rua Rio Comprido, rua Caiapó, a mulher grávida desceu com uma outra mulher amparando, rua Corcovado, rua Pe. José Maria de Man, nosso amigo desceu.


Um palmo de lixo, folhas secas, copos descartáveis acumulados na guia da rua. Uma trava de moto trancada no poste aguardava sua utilidade, até lá as formigas faziam de ponte. Ficou enjoado com o ato do homem, farto da vantagem que os homens tiram de tudo, vagam pelo mundo estrangulando tudo e se dizem bonitos, perigosos, românticos. Aquele porco e sua sombra deserta de fidelidade. Confluência de acontecimentos que não escaparam e devem ser guardados até hoje. Entrou no bar do Zé e pediu uma coca e um cigarro picado. O rádio logo ia dar a notícia do enterro do homem que sarrava o pau, agora alfinetado. Era como se ele estivesse num vazio de lembrança e impotência. Devia ter feito alguma coisa antes, esperou a própria vítima agir, a mulher não aguentava mais ser esfregada por um estranho em público. Detestava aquela sensação de arrependimento, mesmo com o

desfecho que favorecia alguma justiça. Curioso estado sem surpresa, da outra vez foi assim também. Quando você vai ter coragem? Porque as pessoas fazem as coisas que fazem? É este o lugar que o diabo espera suas botas e seus detalhes. Zé pediu pra ele olhar o bar enquanto ia ao banheiro. Ele estava envolvido num silêncio parecido ao que conhecem os mergulhadores, acendeu o Hollywood azul. Eu não sabia que tinha trocado a mesa de sinuca Zé. O Malagueta arrumou briga aqui ontem e rasgou o pano. E já trocaram? Pois é, veio um cara hoje de manhã e trocou, ficou bom né? Silêncio de mergulhador. Ficou passando a mão no pano da sinuca, fazendo que sim com a cabeça, soprando fumaça pra lâmpada fluorescente. Se você visse um cara fazendo uma coisa muito errada dentro do ônibus, que cê fazia Zé? Muito errada como? Esfregando o pau numa moça grávida. Tá vendo isso aqui? Hum. Isso aqui já esteve dentro de muita gente e é pra isso que eu carrego. Esse bar era do meu pai, ninguém jamais atacou uma mulher aqui dentro e saiu vivo. É pra isso que isso anda comigo. Entendi, mas já tentou fora do bar? Já. O estômago parece um avião descendo. Ele imaginava o quanto Zé poderia ser violento, precisou bater as costas da mão na mesa de sinuca pra espantar o rosto e a mão segurando o cordão no pescoço do Zé. É foda. É, é foda mesmo.

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